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  Lucia Hippolito
Lucia Hippolito
   
     
 

Lula despertou a “patrulha da lama”

Dossiês contra o adversário constituem ingrediente corriqueiro em campanhas eleitorais. Aqui, nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Cochinchina.

Campanhas eleitorais bem estruturadas dispõem de grupos especialmente encarregados de colecionar processos, falcatruas, gafes, malfeitorias, discursos antigos, recortes de jornais, fotos comprometedoras, enfim, toda sorte de material que faz a alegria da “patrulha da lama” nas eleições.

Os dossiês são vazados para a imprensa, ou servem apenas de instrumento de chantagem para paralisar o adversário.

No Brasil, o PT tem especial apreço pela tática da utilização de dossiês. O caso mais recente, mas certamente não o primeiro, o do dossiê contra Serra, envolveu o principal assessor da campanha do senador Aloísio Mercadante, opositor de José Serra na disputa pelo governo de São Paulo em 2006.

Mas o PSDB também tem esta cultura. Afinal, os dois partidos são quase irmãos gêmeos. Um se considera o avesso do outro, mas na verdade são bastante parecidos. Ambos se conhecem bem demais. Virtudes e defeitos.

Os dois partidos nasceram em São Paulo, seus caciques são quase todos paulistas. PT e PSDB fazem política em São Paulo disputando quarteirão a quarteirão.

Por isso mesmo, compreende-se perfeitamente a indignação da ministra Dilma Roussef à simples menção da palavra “dossiê”. Começou negando veementemente sua existência porque, para os petistas, dossiê não é uma reunião de dados sobre determinado assunto, como apontam os dicionários. Para os petistas, dossiê é alguma coisa malévola, construída especialmente para destruir alguém.

O interessante nesse mais recente escândalo envolvendo o altíssimo escalão da República é que o principal responsável por despertar a “patrulha da lama” e trazê-la para o primeiro plano da política nacional bem mais cedo do que era esperado é o próprio presidente da República.

Isto mesmo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Sua Excelência não desce do palanque desde 2002. Assim, botou a campanha de 2010 na rua cedo demais.

Não se passa um único dia sem que o presidente – em falas, entrevistas, palanques em ambientes fechados, palanques a céu aberto etc. – afirme que vai fazer o sucessor, que a oposição pode tirar o cavalo da chuva, que a base aliada terá candidato, que nunca na história deste país houve governo melhor que o dele etc. etc. E põe etc. nisso.

Esta atitude do presidente coloca os seus possíveis candidatos na linha de tiro, tanto dos tiros da oposição quanto dos tiros de eventuais nomes preteridos dentro do próprio PT ou mesmo da base aliada.

Um a um, os herdeiros presumíveis de Lula foram sendo abatidos tão logo eram beneficiados pela preferência do presidente.

Caíram, a bem da verdade, por suas próprias ações e não por intriga da oposição.

José Dirceu, alvejado de morte quando seu principal auxiliar foi apanhado com a boca na botija pedindo propina a bicheiro, sobreviveu alguns meses, para terminar cassado pela Câmara dos Deputados e transformado em réu no Supremo Tribunal Federal, acusado de chefe de quadrilha do mensalão.

Antonio Palocci, alvejado de morte quando seus companheiros da República de Ribeirão Preto começaram a contar as estripulias do chefe, ordenou a quebra do sigilo bancário de um simples caseiro que ousou contradizê-lo e acabou indiciado por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, peculato e falsidade ideológica, referente à sua gestão como prefeito, e por violação de sigilo bancário, referente à sua gestão como ministro. (Nada mau, em matéria de folha corrida.)

De novo, caíram por suas próprias ações, não por uma urdidura da oposição.

No caso da ministra Dilma Roussef, as opiniões menos lisonjeiras sobre ela vêm de lideranças petistas e não da oposição – mais uma vez. Dilma é considerada recém-chegada, porque militou no PDT até 1999 e só aderiu a Lula na campanha de 2002. Isto é o mais gentil que dizem a seu respeito.

Certos caciques petistas vão além e apontam em Dilma falta de habilidade política, arrogância, truculência, deselegância, quando não falta de educação pura e simples.

Dilma está exposta à “patrulha da lama”, que não existe apenas nas hostes adversárias. Adversárias na oposição, bem entendido. Quando aos “aloprados” de seu próprio partido, não se sabe.

O que se sabe é que o presidente Lula despertou a “patrulha da lama” e vai ser difícil botá-la para dormir novamente.



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Sem noção do perigo

Muita gente andou falando demais, neste escândalo do dossiê contra o ex-presidente Fernando Henrique e a ex-primeira-dama Ruth Cardoso.

Falando demais, falando para quem quisesse ouvir, dando exibições de prepotência, truculência, má-fé e desrespeito.

E continua falando demais.

Até agora, já se sabe que o ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social, afirmou no dia 6 de fevereiro, que “ninguém colocará o governo nas cordas. Vamos abrir o suprimento de fundos desde lá atrás”.

Já se sabe que a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, declarou a 30 industriais, num jantar em São Paulo, no dia 20 de fevereiro, que “não vamos apanhar calados”.

Já se sabe que o ministro Tarso Genro e a ministra Dilma declararam publicamente que o tal levantamento de dados foi produzido para atender a solicitação do TCU.

Já se sabe que o TCU se pronunciou oficialmente, desmentindo os dois ministros.

Já se sabe, também, que o ministro José Múcio, das Relações Institucionais, declarou que “alguém, dentro do Planalto, resolveu fazer o mal”, reconhecendo oficialmente que o dossiê existe e que saiu de dentro da Casa Civil da Presidência da República.

Mas a ministra Dilma Roussef parece que não está entendendo a gravidade de sua situação. Declarou no fim de semana que, se for convocada a comparecer à CPI, não irá, pois “tem mais o que fazer”.

Será que a ministra não conhece o Art. 13 da Lei nº 1.079, de 1950, conhecida como Lei do Impeachment?

Está lá: “São crimes de responsabilidade dos Ministros de Estado:
...
3. A falta de comparecimento sem justificação, perante a Câmara dos Deputados ou o Senado Federal, ou qualquer das suas comissões, quando uma ou outra casa do Congresso os convocar para pessoalmente, prestarem informações acerca de assunto previamente determinado.”

A pena para esses crimes, sempre de acordo com a Lei nº 1.079, vai desde a perda do cargo, com inabilitação, até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública, até processo e julgamento por crime comum, na justiça ordinária, nos termos das leis de processo penal.

É bom que alguém presenteie a ministra Dilma com uma cópia da lei, para evitar maiores dissabores.

Até porque as críticas mais pesadas contra a ministra estão partindo – como sempre, em se tratando do PT – de petistas. É por isso que se diz que no PT não existe "fogo amigo": eles se odeiam.

Mas não se pode acusar o governo Lula de inventar roteiros novos. Desde 2004, quando o escândalo Waldomiro Diniz explodiu no colo do então todo-poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu, o script é seguido à risca.

Um escândalo de grandes proporções envolve altíssimos escalões do governo. A imprensa publica, o envolvido nega, a oposição esbraveja, o presidente declara que não sabia de nada, protege o envolvido, até que a permanência da pessoa do governo fica impossível.

Aí o presidente Lula se livra do auxiliar incômodo.

E segue o baile...



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Por dentro do blog

E-mail de Ruth Cardoso


Recebi hoje, como muitos jornalistas devem ter recebido, um e-mail muito gentil da antropóloga Ruth Cardoso, mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Ruth me enviou, gentilmente, cópia da nota oficial que está publicada hoje em todos os principais jornais do país.

Abaixo segue a minha resposta:

"Cara Ruth

Agradeço sua comunicação a respeito do que me parece uma grande confusão entre desinformação e má-fé.

Parece que há desinformação quando se confundem despesas de representação inerentes a um cargo com apropriação de recursos públicos para fins privados.

Também parece que existe má-fé quando se atribui a um ex-presidente (sua mulher e família) gastos exóticos que são, nada mais nada menos, do que despesas diárias e verbas de representação.

Sobretudo, quero cumprimentá-la pela atitude transparente e republicana: assim como a divulgação (maliciosa) de suas despesas e do ex-presidente Fernando Henrique não representaram um único motivo de abalo à segurança nacional, estou convencida (e tenho divulgado por todos os meios ao meu alcance) de que a divulgação dos gastos do presidente Lula, de dona Marisa Letícia e da primeira-família não constituem, nem de longe, uma fímbria de ameça à segurança nacional.

Cordialmente
Lucia Hippolito"

Considero que, assim, contribuímos todos para a transparência, elemento essencial da consolidação democrática no Brasil.


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Porque hoje é sábado

Apenas uma pergunta


Seus índices de popularidade estão nas alturas.

Os números da economia são os melhores em décadas.

Os banqueiros não conseguem parar de rir desde 2003.

Os empresários estão produzindo no limite da capacidade instalada.

O dólar está nos níveis mais baixos das últimas décadas.

A nova classe média está consumindo como nunca.

Os programas sociais do governo federal já atingem 25% das famílias brasileiras.

A base aliada do governo é a mais ampla das últimas décadas.

A oposição é a pior das últimas décadas.

Não existe, no horizonte próximo -- e mesmo de meia distância -- nenhuma liderança política que lhe faça sombra.


Por que está cada dia mais raivoso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva?


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Blog também é cultura

Está lá no Aurélio: dossiê [Do fr. dossier.]

Substantivo masculino.

1.Coleção de documentos referentes a certo processo, a determinado assunto, ou a certo indivíduo etc.

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Dormindo com o inimigo

Realmente, quem tem um braço direito como Erenice Alves Guerra não precisa de inimigos...

E pensar que tinha gente imaginando que este escândalo envolvendo a ministra Dilma era coisa da oposição ou de funcionário subalterno da Casa Civil "cooptado" pela revista Veja.

Mas não. A autora do dossiê(?) -- levantamento de dados(?), atualização das contas(?) -- é nada mais nada menos que a subchefe da Casa Civil da Presidência da República!

Acho que, além de figa de Guiné e galho de arruda, a ministra Dilma precisa dar um bom banho de descarrego na Casa Civil. Ô lugarzinho bom para aparecer escândalo!

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Por dentro do blog

O moderador vai voltar. Infelizmente, não foi possível manter o espaço sem moderação.

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A quem interessa queimar a ministra Dilma

É preciso tratar com serenidade esta questão dos cartões corporativos. Os dados concretos são:

1º. alguém do governo vazou as contas do ex-presidente Fernando Henrique e da primeira-dama, dona Rute. Estas contas estavam arquivadas na Casa Civil, sob a guarda da ministra Dilma Roussef.

2º. as despesas com cartões corporativos do atual presidente da República, da primeira-dama e dos familiares também ficam arquivadas na Casa Civil, sob a guarda da ministra Dilma Roussef.

Portanto, a ministra Dilma Roussef é a pessoa ideal para prestar os esclarecimentos necessários à CPI. Não se trata de ofender ninguém, não é necessário exacerbar paixões nem manter uma desnecessária queda de braço entre governo e oposição.

É importante ressaltar, no entanto, que, se o vazamento das contas do ex-presidente Fernando Henrique não causaram nenhum abalo à segurança nacional, é razoável imaginar que a divulgação das contas do presidente Lula, da primeira-dama, dona Marisa, e da família presidencial tampouco sejam explosivas para a segurança nacional.

É preciso distinguir entre culpa e responsabilidade. Não acredito que a ministra Dilma seja culpada pelo vazamento das contas do ex-presidente Fernando Henrique e da primeira-dama, dona Rute.

Mas a ministra Dilma é responsável, sim, pelo vazamento, porque é a ministra da Casa Civil, e tudo o que acontece na Casa Civil é sua responsabilidade.

Daí a importância dos esclarecimentos da ministra à CPI dos Cartões Corporativos.

O momento do vazamento das contas do ex-presidente Fernando Henrique não poderia ter sido pior: a CPI não decolava, a oposição estava a ponto de abandonar os trabalhos.

Alguém, de dentro da Casa Civil, querendo ajudar, pode ter botado tudo a perder. Exatamente como aconteceu no caso dos “aloprados” e da compra de um dossiê contra José Serra – foram ajudar e acabaram levando a eleição presidencial para o segundo turno.

A manobra foi tão desastrada, que já se especula que existe gente dentro do Palácio do Planalto disposta a detonar a possível candidatura da ministra Dilma à sucessão do presidente Lula.

No interesse do próprio governo e para preservar suas chances de concorrer em 2010, seria de todo recomendável que a ministra Dilma se oferecesse para ir à CPI prestar os esclarecimentos sobre o caso.

Ah, sim, passando antes por uma loja em Brasília para comprar uma boa figa de guiné e um poderoso galho de arruda.

Tem gente torcendo contra, ministra. E dentro do Palácio do Planalto.


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O PMDB é para profissionais

O PMDB não é mesmo para amadores. A lógica do comportamento do partido é coisa para profissionais.

Há décadas, o PMDB segue fielmente um mesmo script. Primeiro, perde a eleição para presidente da República. Em seguida, adere com elegância ao novo governo. Apropria-se de fatias importantes da máquina pública.

Mas nem todo o partido adere, evidentemente. Uma parte fica na oposição, "guardando lugar".

Quando as eleições se aproximam, o PMDB começa a ficar nervoso, dá-lha uma coceira... E o partido cai na oposição.

Faz o maior número de prefeitos, vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores. Ah, também muitos governadores. Assim, credencia-se para ser cortejado pelo governo seguinte.

E segue o script.

Depois de participar do primeiro mandato do presidente Lula no velho estilo "metade lá metade cá", o PMDB fechou oficialmente uma aliança com o governo Lula, e todo o partido aderiu.

Todo não. Assim como a aldeia gaulesa de Astérix resistia a César, um pequeno grupo de senadores peemedebistas ficou, também oficialmente, na oposição.

Por mais juras de amor e promessas de procurar o bem do Brasil, sabemos bem qual é a "substância da galinha" desta coalizão: a partilha dos cargos públicos.

Evidentemente, o PT não gostou nada de ter que partilhar a máquina pública, que eles aparelharam com tanta dedicação durante o primeiro mandato do presidente Lula, com o PMDB, partido de gente experiente, conhecedora da máquina estatal, dos ralos por onde sai o dinheiro público. Um partido de profissionais.

A longa queda de braço entre a ministra Dilma Roussef e o senador José Sarney a respeito do preenchimento dos cargos no setor elétrico foi apenas um exemplo dos "desacertos" entre PT e PMDB. Ah, Sarney ganhou de ponta a ponta. Do ministro aos presidentes e diretores de estatais elétricas.

As eleições municipais de 2008 prometem novos embates entre os aliados. Isso porque o PT está ensaiando alianças com o PSDB em algumas capitais – e em cidades menores também, apenas não tão vistosas.

O PMDB acusou o golpe, e o Diretório Nacional vai recomendar "o máximo possível de alianças com o DEM".

Nada sério, apenas o PMDB executando fielmente seu script: trata de garantir a eleição do maior contingente de prefeitos e vereadores, para sustentar sua posição e aumentar seu cacife em 2010.

Se o PT e o PSDB pensam que são espertos e conseguirão enganar o PMDB, poderão ter uma surpresa desagradável.

Como dizia o dr. Tancredo Neves, esperteza quando é muita, cresce e come o dono.


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Porque hoje é sábado -- de Aleluia!

Que cada um(a) escolha seu Judas e malhe bastante!

Boa Páscoa a todos(as)!

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  PERFIL
   
 

Lucia Hippolito é cientista política, historiadora e jornalista, especialista em eleições, partidos políticos e Estado brasileiro. É comentarista política da Rádio CBN desde 2002. Faz comentários também para o Uolnews e para a Globonews.

Colaboradora de vários jornais e revistas, debatedora dos programas Sem Censura (TVE/Rede Brasil) e Debates Populares (Rádio Globo AM-Rio), é também autora de vários livros sobre política, dentre os quais "PSD de raposas e reformistas", publicado pela Editora Paz e Terra e premiado como melhor obra de ciência política pela Anpocs (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais); e "Política. Quem faz, quem manda, quem obedece", escrito em co-autoria com João Ubaldo Ribeiro, publicado pela Editora Nova Fronteira. Mais recentemente, escreveu "Por dentro do governo Lula. Anotações num diário de bordo", publicado pela Editora Futura.


e-mail:
lucia.hippolito@sgr.com.br


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