E foi mesmo um dia históricoQue surra! Por sete votos a zero, os ministros do TSE decidiram que os mandatos pertencem aos partidos também nos casos de eleição majoritária: prefeitos, governadores, senadores e presidente da República. Confesso que torcia, mas não esperava um resultado por unanimidade. Como o voto majoritário é distinto do proporcional, imaginei que algum ministro concluísse que nos casos de eleição majoritária há uma personalização maior da candidatura. Mas o argumento principal foi o que descrevi na nota anterior: não existe candidatura avulsa, os candidatos são escolhidos em convenções partidárias, utilizam os recursos do Fundo Partidário e beneficiam-se do horário eleitoral gratuito no rádio e na TV, concedido aos partidos e não aos candidatos. Agora resta pendente a questão da data. A partir de quando o detentor de mandato majoritário que mudou de partido entra na linha de tiro? Para ser coerente com a decisão do STF no dia 4 de outubro, deveria ser a partir de hoje, 16 de outubro, data em que o TSE firmou jurisprudência sobre o assunto. Assim, os governadores, prefeitos e senadores que mudaram de partido – alguns freneticamente -- nos últimos dias não perderiam o mandato. A porteira fecharia daqui para frente. Se for isso, já é um grande avanço, quase uma revolução. Mas que vai ter gente enfartando até a decisão final, ah, isso vai mesmo. De novo, bem feito!
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Tomara que seja mais um dia histórico Hoje provavelmente vamos assistir no TSE a mais um emocionante capítulo da novela: “A quem pertence o mandato?" Na histórica decisão de 27 de março, ratificada pelo STF no também histórico dia 4 de outubro, o TSE decidiu que os mandatos proporcionais (deputados e vereadores) pertencem ao partido. Isto porque, no entendimento dos ministros (com o qual concordo entusiasticamente), não existe no Brasil a hipótese de candidatura avulsa. Além do mais, os candidatos são escolhidos em convenções partidárias, integram listas partidárias, beneficiam-se dos recursos do Fundo Partidário e freqüentam o horário eleitoral gratuito em rádio e TV, destinado aos partidos. Se tudo isto ainda não bastasse, uma singela conta deveria colocar um ponto final na discussão. Para ficarmos apenas nas duas últimas eleições, em 2002, dos 513 deputados federais, apenas 33 foram eleitos com os próprios votos. Os 480 restantes foram eleitos com votos da legenda, da coligação e das sobras eleitorais. Em 2006, a situação não foi diferente. Dos 513 deputados federais, apenas 39 alcançaram o quociente eleitoral dos seus estados, sendo os demais 474 eleitos com votos da legenda, da coligação e das sobras eleitorais. Na sessão de hoje à noite, o TSE deverá responder à seguinte pergunta: a quem pertencem os mandatos majoritários (prefeito, governador, senador e presidente)? Não é uma resposta tão simples quanto à da primeira pergunta. Há uma corrente que entende que, sendo majoritário, o voto é dado diretamente à pessoa do candidato. Se ele não for eleito, os votos são descartados. Segundo este entendimento, seria possível aceitar a interpretação de que os mandatos pertencem ao candidato. Mas uma segunda corrente entende que a fidelidade partidária deveria também valer para cargos majoritários. Pois o argumento central é o mesmo: não existe candidatura avulsa, todos os candidatos são escolhidos em convenções partidárias, beneficiam-se dos recursos do Fundo Partidário e freqüentam o horário eleitoral gratuito em rádio e TV, destinado aos partidos. Se valer esta interpretação (que me parece a mais coerente), tudo deve ir também parar no Supremo. E se o Supremo mantiver esta possível decisão, também deverá ser mantida a data-limite de 27 de março, quando da primeira decisão do TSE ou o STF manterá a data de hoje, para conservar a coerência? Esta será uma decisão importante. Prefeitos buscando reeleição, candidatos a prefeito, senadores seduzidos pelas benesses do governo, governadores desejosos de partilhar das alegrias de ser aliado do governo, trocaram freneticamente de partido nos últimos tempos. Se valer a data de 27 de março, vai ter gente ateando fogo às vestes em praça pública. Se valer a data de hoje, todos ficarão tranqüilos. Mas como o Supremo só tomará a decisão daqui a algum tempo (se o caso for parar lá, o que é a hipótese mais provável), vai ter político comprando remédio de tarja preta nas esquinas. E será bem feito! A classe política brasileira parece que gosta de viver perigosamente, sempre brincando à beira do abismo. Um dia, a casa cai. Já começou a cair dia 27 de março, caiu quase toda dia 4 de outubro, e pode virar um monte de escombros com a decisão de hoje. Quem sabe, assim eles aprendem.
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O buraco é mais embaixoComete grave equívoco quem se deixa apanhar na armadilha de pensar que a crise do Senado se resolveu com a licença (queda? renúncia?) do senador Renan Calheiros da presidência da Casa. A crise é muito mais profunda e atinge as duas casas do Poder Legislativo. O fato é que, segundo os últimos dados, 87% da produção legislativa do Congresso brasileiro é resultado de proposições que emanam do Executivo. Não são apenas as Medidas Provisórias. A iniciativa legislativa nas mãos do Poder Executivo transformou o Congresso num poder meramente homologatório. Claro que as Medidas Provisórias tornaram a situação mais aguda. As MPs estão destruindo o Poder Legislativo federal. E a situação é particularmente perversa para o Senado da República. Isto porque, segundo o art. 61, § 8º, da Constituição de 1988, as medidas provisórias terão sua votação iniciada na Câmara dos Deputados. (parágrafo incluído pela Emenda Constitucional nº 32, de 2001). Já o Art. 64 determina que a discussão e votação dos projetos de lei de iniciativa do presidente da República, do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores tenham início na Câmara dos Deputados. Ou seja, tudo o que vem do Executivo, do STF e dos tribunais superiores, seja projeto de lei ordinária ou complementar, proposta de emenda constitucional ou medida provisória, começa a tramitar pela Câmara. No caso das MPs, o que faz a Câmara dos Deputados? Estica os prazos ao máximo, depois vota tudo correndo, sem prestar muita atenção ao que está fazendo, e joga para o Senado. Assim, embora também possa produzir sua própria legislação (exceto nos casos previstos na Constituição, em que a iniciativa legislativa é exclusiva do presidente da República), o Senado sempre funcionou mais como casa revisora das leis produzidas pelos deputados. Mas agora, os senadores se transformaram em meros carimbadores dos textos produzidos pela Câmara. No caso das propostas de emenda constitucional (PEC), a coisa beira o ridículo. Como reação a este papel de carimbadores, os senadores alteram praticamente todas as emendas constitucionais que vêm da Câmara. A Câmara põe, e o Senado dispõe. Como as alterações devem voltar para a casa de origem para serem apreciadas novamente, está praticamente impossível aprovar uma emenda constitucional em tempo razoável. Mesmo as atividades que são de competência exclusiva do Senado (Art. 52) foram contaminadas por este estado de inação maléfica. Sabatinas de indicados pelo presidente para a diretoria do Banco Central, embaixadas, tribunais superiores, agências reguladoras, passaram a ser palco de disputa política, clientelismo, apadrinhamento. Nada é levado a sério, como se viu, aliás, pela publicação da transcrição das discussões da Comissão de Infra-estrutura, quando da sabatina dos diretores da Anac, a Agência de Aviação Civil. Nessas últimas semanas de crise, em que o senador Renan Calheiros se encarregou pessoalmente de desmoralizar ainda mais o Senado, os líderes da base aliada desapareceram ou tiveram um comportamento entre o ridículo e o patético. A líder do governo no Congresso, senadora Roseana Sarney, foi se esconder no Maranhão. E não se sentiu nem um pouco constrangida em declarar que foi cuidar das eleições municipais no seu estado – embora estejamos ainda a um ano das eleições para prefeitos e vereadores. O líder do PMDB, senador Valdir Raupp, fez um papelão, primeiro excluindo Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos da CCJ – para depois ter que reconduzir, diante de ameaça de rebelião aberta feita pelos senadores de quase todos os partidos. Mas o retrato mais completo da desmoralização total do Senado da República foi a foto estampada em todos os jornais e revistas: a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti, flagrada no plenário da casa vendo fotografia de mulher pelada no laptop comprado com dinheiro do contribuinte. Pobre Senado Federal. Ninguém merece.
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Por dentro do blogEstou de volta. Amanhã retomo o batente e as conversas com vocês. Obrigada de coração a todos e a todas vocês, que seguraram o ritmo do blog na minha ausência. Hoje, me deixem curtir meus netos e minhas netas. Até amanhã.
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Auf wiedersehenAo final desta semana riquíssima, quero deixar aqui um testemunho. Como sabem os que me honram com sua presença neste blog, tenho tripla militância. 1. como historiadora, foi emocionante poder participar da festa da reunificação alemã. Estar aqui em Berlim no dia 3 de outubro foi uma experiência inesquecível. Este povo, que foi protagonista de momentos dos mais terríveis da História da Humanidade, vem dando exemplos de tolerância, talento, democracia e esperança no futuro. Ver a Porta de Brandemburgo, literalmente fechada durante 28 anos (desde 1961, com a construção do muro), escancarada, linda, foi uma experiência insubstituível. Ver Berlim moderna, de uma modernidade quase agressiva, altiva, levantando a cabeça e dando passos importantes em direção ao futuro, foi igualmente emocionante. Ter tomado conhecimento do pacto de solidariedade entre os estados alemães, em que os mais ricos ajudam os mais pobres, foi realmente estimulante. Finalmente, hoje estive na subprefeitura de Schöneberg. Os mais velhos hão de se lembrar: foi da sacada dessa prefeitura (então sede da Prefeitura de Berlim), que em 26 de junho de 1963, o presidente John F. Kennedy pronunciou a famosa frase que encerrava toda a solidariedade do mundo ocidental ao povo de Berlim, recentemente cercado pelos soviéticos (o Muro de Berlim é de 1961): Ich bin ein Berliner. Também sou berlinense, estou com vocês. 2. como cientista política, estudo há mais de 20 anos o sistema político alemão. Sistema eleitoral misto, metade proporcional metade distrital. Sistema partidário também misto, com partidos nacionais e partidos regionais. Políticos brasileiros adoram posar de modernos e intelectualizados, querendo que o Brasil adote o sistema eleitoral alemão, porque segundo eles o sistema proporcional mantém a democracia e a representação das minorias, e o sistema distrital garante maior proximidade e maior controle do eleitor sobre os atos de seu representante. Pois, como já contei aqui a vocês, a grande novidade é que os partidos políticos alemães estão querendo acabar com o voto proporcional, porque, segundo eles, estimula a insegurança, engorda a barganha e corteja a corrupção. 3. como jornalista, pude perguntar, entrevistar, sondar. Aprendi muito, e convivi com gente brasileira que dá orgulho a qualquer um e a todos nós. Prefeitos, subprefeitos, gestores públicos, ex-prefeitos, ex-governadores. Duas prefeitas valorosas, uma do interior do Maranhão, outra do interior de São Paulo. Partidos os mais variados. Foi uma viagem em off. Todos puderam se manifestar livremente, sem preocupação com a minha presença. Muito bom. Todos e todas, rigorosamente interessados em aprender, em trocar experiências, em estabelecer comparações entre situações alemãs e brasileiras. Não se trata de transplantar instituições. Até porque eu gostaria de transplantar Wagner, Beethoven, Goethe, Heine, Weber etc. etc. etc. Trata-se de conhecer experiências, sucessos, fracassos, métodos e práticas. E posso dizer com tranqüilidade, que tive orgulho de participar deste grupo. A Fundação Conrad Adenauer, uma das seis fundações políticas que recebem recursos do governo alemão para disseminar a democracia e o civismo na Alemanha, foi a responsável pela viagem. Viagem que terminou em grande estilo. Uma visita ao maravilhoso museu Pergamon, um dos grande museus de Antigüidade Oriental e Clássica no mundo. Imperdível! À noite, um jantar num restaurante localizado no Castelo de Charlottemburg (antiga residência da rainha Charlotte, esposa de Frederico I da Prússia, seguido de um concerto de música barroca. Uma seleção extremamente feliz de trechos de peças do barroco alemão e austríaco. No total, um programa impecável. Agora, uma semana de férias. Volto à ativa na segunda-feira, dia 15 de outubro. Ou, a qualquer momento, em edição extraordinária. (O que é o mais provável.) Até lá.
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Pausa para comemorar -- e pausa para lamentarÉ impossível passar em branco sobre a histórica decisão do Supremo de acabar com a pouca-vergonha do troca-troca partidário. Suas Excelências transformaram em lei aquilo que as pessoas de bem já sabiam há muito tempo: o mandato pertence ao partido. E ponto final. Não é preciso dizer mais nada. Com todo o respeito, suas Excelências estão batendo um bolão. Mas também é impossível passar em branco sobre a histórica decisão do PMDB de expulsar da CCJ do Senado dois dos fundadores do PMDB (aliás, do MDB): Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos. Com isso, os caciques do partido mandam dizer que não querem gente séria em suas fileiras. O PMDB de hoje é de gente como Renan, Sarney, Wellington Salgado, Valdir Raupp, Almeida Lima e outros do mesmo calibre. Daqui a uma semana, no dia 12 de outubro, vai fazer 15 anos que o dr. Ulysses desapareceu no mar de Angra dos Reis. Agora sabemos todos que o PMDB desapareceu com ele. Que descanse em paz.
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Samba em BerlimHamburgo, Berlim, Jô Soares e pés congeladosO último dia em Hamburgo foi igualmente interessante, embora menos estressante (ainda bem). Pude fazer duas entradas na CBN, prestando contas aos ouvintes do que tenho visto e ouvido por aqui. Entrei ainda no Uolnews, também prestando contas do que tenho visto por aqui. (Lamento não ficar na Europa falando sobre valerioduto mineiro, Renan, Ideli, Walfrido e outras bossas. Mas acho que meu dever é outro, no momento. É partilhar com vocês o que tenho visto e ouvido por aqui.) E tome música brasileira, por todo canto. Visitamos a autarquia que cuida do porto de Hamburgo. É incrível ver como nove pessoas cuidam da gestão do oitavo porto do mundo, segundo porto da Europa, apenas atrás de Rotterdam na Holanda. Uma autarquia que fatura € 300 milhões por ano. A arquitetura da Hamburg Port Authority, a autarquia do porto de Hamburgo inclui empresas privadas que cuidam de toda a logística e lidam diretamente com sindicatos de estivadores, com problemas de carga e descarga. Mas nenhuma conversa teórica substituiria um passeio de traineira pelos canais do rio Ulster e depois pelo próprio rio Elba, com suas ondas enormes, suas marés que mais parecem um oceano (por isso Hamburgo é chamado de porto marítimo). Diferentemente dos portos brasileiros, com docas de carga e descarga e pátios para estoque de carros e containers, o porto de Hamburgo é um porto-indústria. Lado a lado estão os supermega navios (vimos um chinês, que mais parecia uma cidade – monstruoso de grande!) e estaleiros construindo supergraneleiros, navios de passageiros, e, claro, superiates para milionários árabes. Uma coisa! E tome música brasileira! No barco, no restaurante onde jantamos, no nosso hotel, onde chegamos, exaustos e felizes. 2. Berlim, Jô Soares e pés congeladosMeia-noite, lá estava eu, em frente ao Reichstag, o Parlamento alemão, agasalhadíssima, sob um frio de oito graus (quando a gente fica parada, parece que a temperatura desce uns 20 graus). A festa da reunificação juntou mais de um milhão de pessoas na Porta de Brandemburgo, símbolo da reunificação alemã (1990). Isto porque, para além da Porta de Brandemburgo era Berlim Oriental. Quando o Muro caiu, 1989, a Porta foi aberta, depois de 28 anos (o muro foi construído em 1961). Um produtor brasileiro, uma equipe de gravação alemã, simpaticíssima, eficientíssima, e eu, ali parada, no frio. Na última hora, ainda no hotel, tomei uma providência que me lembrou meus tempos de estudante, viajando pela Europa, mais de trinta anos atrás: forrei com jornais meus sapatos de sola de borracha. Não existe melhor isolante no mundo. Foi o que me salvou. Apesar de meias de lã e das solas grossas, fiquei 1:30h em pé numa calçada de pedra. O frio penetrava pernas acima, e teria sido terrível, não fora o jornal. Às duas e tanto da manhã, terminamos. Chego ao hotel às 03:00h, pés enregelados. Antes de dormir, uma receita de minha avó: pedi um pouco de sal ao Room Service, pus água bem quente na banheira, joguei o sal, e fiz um escalda-pés (grande vovó Alzira!!!). Às quatro da manhã, tombei exausta.
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Primeiro dia em HamburgoA jornada foi muito puxada hoje. Começou pontualmente às 8,30h (pontualidade germânica) e terminou às 21,30h. Os participantes, inclusive eu, mal se agüentavam em pé. Ainda mais porque temos que lidar com o problema do fuso horário (aqui estamos ainda em horário de verão, com cinco horas à frente do Brasil). Pauleira. Hoje assistimos a nove (!) conferências, sendo duas na própria sede da Prefeitura. Ouvimos e debatemos sobre os seguintes temas: 1. Estrutura da administração municipal (tendo Hamburgo como foco); 2. A Região Metropolitana de Hamburgo da perspectiva da economia; 3. Relação entre União e os estados federados; a reforma do federalismo; 4. Desenvolvimento urbano sustentável; 5. Financiamento de investimentos municipais; 6. Hamburgo – ponte entre mercados europeus; 7. Relações econômicas entre Alemanha e Brasil; 8. A política da CDU (Democracia Cristã) em Hamburgo; 9. O ensino geral e a formação profissional na Região Metropolitana de Hamburgo. Claro que não se consegue registrar tudo. Claro que nem tudo foi muito interessante. Mas alguns pontos foram interessantíssimos. Do que consegui reter, destaquei alguns pontos para partilhar com vocês e para tentar gerar um debate entre vocês. 1º -- a principal relação na Alemanha se dá entre a União e os estados federados. O município tem, sob muitos aspectos, menos autonomia que os municípios brasileiros. A autonomia administrativa municipal estava prevista na Constituição da União Européia, cuja aprovação fracassou. Deveria ser aprovada por unanimidade dos (então) 25 países-membros, mas os referendos francês e holandês recusaram o texto constitucional. Portanto, tudo voltou à estaca zero em matéria de aumento da autonomia administrativa municipal. Os Parlamentos estaduais são eleitos da mesma forma que o Parlamento federal, isto é, pelo sistema misto (conhecido no Brasil como distrital misto): metade dos deputados é eleita por voto proporcional em lista fechada e a outra metade pelo sistema distrital puro (como são eleitos os senadores no Brasil). Grande novidade!!! Os principais partidos alemães estão querendo extinguir o voto proporcional e eleger todos os parlamentos por voto distrital puro, seguindo o sistema inglês. Justificativa: facilita a governabilidade, a constituição de maiorias sem a necessidade de barganhas políticas. (parece familiar? Pois é.) A Alemanha conta hoje com cerca de 40 partidos, mas nem todos têm representação no Parlamento federal. Para estar representado, o partido precisa conquistar 5% dos votos proporcionais em todo o país. Se não conseguir, não participa do Parlamento federal. Hoje, os partidos relevantes, que contam no jogo político, são quatro: Social-Democracia (SPD), Democracia Cristã (CDU), verdes e liberais. Mesmo assim, os partidos querem alterar o sistema eleitoral para garantir maioria desde a eleição. É mais previsível e menos sujeito a crises. É um bom argumento. O Senado aqui é chamado de Conselho Federal. É composto por representantes dos estados federados, não eleitos, mas indicados. O Conselho Federal tem como atribuições discutir a legislação nacional de competência da União (que não é muita. A maior parte da legislação é competência dos estados). Os conselheiros (senadores) não são em igual número por estado, como no Brasil. São proporcionais à população. Assim, os cinco maiores estados têm seis conselheiros, enquanto os 11 restantes (são 16 estados federados) têm apenas três conselheiros. 2º -- a Região Metropolitana de Hamburgo é interessantíssima. Localiza-se em três estados diferentes: Hamburgo, Baixa Saxônia e Schleswig-Holstein Para estimular os negócios na EM de Hamburgo e lidar com três mil funcionários burocráticos dos três estados, criou-se uma Parceria Público-Privada (isso mesmo!), a Süderelbe AG, empresa com 67% de capital privado e 33% de capital público. A empresa é avaliada de dois em dois anos por um conselho fiscal, tem metas a cumprir, e uma avaliação negativa implica pura e simplesmente a extinção da agência. Até agora, a agência é um sucesso, e a Prefeitura de Londres a está contratando para montar o mesmo esquema para gerir a Região Metropolitana de Londres. Ah, esta PPP tem apenas 15 funcionários para facilitar a instalação e o desenvolvimento de 190 mil empresas. 3º -- Reunificação. Esta conta ainda está muito salgada. Os 16 estados construíram um pacto de solidariedade para distribuir alguns impostos estaduais para estados mais pobres, como compensação. Cinco estados mais ricos pagam cerca de 80 bilhões de euros por ano (!) para os 11 estados mais pobres. Este esquema ainda vai durar mais dez anos, e os estados mais ricos já estão dando sinais de descontentamento com o arranjo. Evidentemente, os 11 mais pobres estão felicíssimos – e são maioria. Os cinco estados pagantes são: Hamburgo, Hessen, Baviera, Renânia do Norte-Vestfália e Baden-Württemberg. Trata-se, basicamente, de transferência de recursos da antiga Alemanha Ocidental para estados da ex-Alemanha Oriental, para que estes possam alcançar patamares mínimos de desenvolvimento. Porque a verdade é que a população da antiga Alemanha Oriental tem grande qualificação intelectual e profissional, mas tem também um fardo cultural preocupante: não apresenta ainda capacidade de disputar lugar num mercado competitivo. Afinal, em oito anos não se apagam os 54 anos de dirigismo estatal, coletivização, emprego garantido... e estagnação. Um dos resultados dessa alta qualificação e baixa capacidade de competição é que, nos estados ocidentais, que pagam melhores salários, 85% da nova geração de servidores públicos provém das regiões orientais da Alemanha. 4º -- Educação é responsabilidade dos estados federados. Entre pré-escolar e ensino médio, são 225 mil alunos (92% deles em escolas públicas). Os alunos cursam uma escola básica igual para todos. Depois se dividem em liceu (quem pretende seguir para a universidade; são apenas 15%) e escolas profissionalizantes. Os professores cumprem regime de 40 horas semanais, e recebem entre € 3.000 mensais (início) e € 3.500 (final de carreira). A variação é pequena. Não têm regime de aposentadoria especial. A idade mínima é igual para homens e mulheres em toda a Alemanha: 65 anos (estudam agora aumentar para 67). Diretores de escola não são eleitos, mas escolhidos pela secretária de Educação, a partir de uma lista elaborada por uma comissão. Chegam a ganhar € 5.300. As universidades passaram a cobrar dos estudantes, a partir de 2007, € 500 por semestre. Os alunos mais pobres podem recorrer a bancos para crédito educativo. É isto. Muita coisa para pensar. Muita coisa para digerir. Mas há bons temas para debate Amanhã tem mais.
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Por dentro do blog
Dia da chegadaDepois de quase 24 horas de viagem, aterrissei no hotel em Hamburgo – a tempo de ver Marta perder o pênalti. Uma pena, porque este time do Brasil jogou muito, mas muito melhor que o time masculino. Há também uma ironia da História neste jogo. Em 2002 o Brasil foi pentacampeão ganhando da Alemanha pelo mesmo placar de 2 X 0 com que as alemãs nos derrotaram hoje. Não tem nada, não. Ser vice-campeão do mundo também é muito bom. Este time feminino está batendo um bolão. Pelo que deu para ver de Hamburgo, cidade que eu não conhecia, gostei dos parques, das ruas arborizadas, da limpeza, da obediência às leis de trânsito. Ah, sim, e toca música brasileira, sobretudo bossa-nova, o tempo todo, no rádio do táxi, no lobby do hotel, no sistema de som do restaurante. Uma delícia. A viagem hoje em dia está muito facilitada, do ponto de vista da alfândega, mas muito complicada do ponto de vista da segurança. Todo mundo é revistado o tempo todo, e quem não viaja de sapato de sola de borracha tem que tirar os sapatos a cada raio X. No aeroporto de Paris – isto desde o 11 de setembro de 2001 – tropas do Exército, com uniforme de campanha e metralhadoras, patrulham o tempo todo. Em compensação, dentro dos limites da União Européia, só se passa uma vez pelo controle de passaportes. Não é o caso de Mônaco, que não pertence à União Européia, embora se localize dentro do território da França. Aliás, foi por isso que o ex-banqueiro foragido Salvatore Cacciola foi preso em Mônaco. Perdeu a proteção que a União Européia dá aos seus cidadãos. Foi preso no hotel, ao apresentar o passaporte. Aliás, há um fenômeno interessante acontecendo na Europa. Já que a unidade e o sistema de proteção recíproca estão garantidos pelo grande guarda-chuva da União Européia, as nacionalidades estão voltando a florescer. Depois da separação da Tchecoslováquia em duas repúblicas, depois do esfacelamento da Iugoslávia, agora a Bélgica parece ser a bola da vez. Flamengos e valões, que nunca se entenderam direito, podem tornar-se países independentes. Antes da União Européia, isto era impensável, porque seriam anexados tranqüilamente pela França e pela Alemanha. Mas é possível que, naquele pequeno território, venhamos a ter três Estados independentes: Flandres, Valônia e Bruxelas (sede da União Européia). Se a moda pega, já-já a Catalunha e o País Basco vão querer independência frente à Espanha. E por que não a Escócia, a Irlanda do Norte e o País de Gales? Em suma, muita coisa acontecendo neste (novo) Velho Mundo.
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