Porque hoje é sábado
Dá para confiar no SupremoAo longo destas duas semanas, aprendemos muito sobre formação de quadrilha, peculato e a constituição de sofisticadas organizações criminosas. Aprendemos que ainda há esperanças para a restauração da moralidade na política brasileira. Nem que seja por medo da cadeia. Aprendemos que uma corte independente julga com isenção, sem “facas no pescoço”, sem paixões partidárias, sem pressões de quem quer que seja. Aprendemos que o Supremo é uma casa política, sim, mas não político-partidária. Que ministros indicados por um presidente da República podem botar no banco dos réus amigos íntimos deste mesmo presidente, a cúpula do partido deste mesmo presidente, três ex-ministros deste mesmo presidente. Aprendemos que o ministro-relator, Joaquim Barbosa, apresentou um voto escrito em português, sem juridiquês nem o latinório de quinta categoria que costuma freqüentar textos de juízes. Quem acompanhou, entendeu tudo. Mas muitos de nós ficaram em dúvida a respeito do julgamento final dos 40 mensaleiros. Isto porque o retrospecto não é favorável ao Supremo: não só não condenou nenhum político até hoje, como demorou 30 anos para condenar o primeiro: ele, sempre ele, Paulo Maluf. Por isso, o tema da prescrição dos crimes freqüentou muitas discussões: e se o julgamento demorar tanto que os crimes já terão prescrito? É bom lembrar a observação do senador Jarbas Vasconcelos, em boa hora recordada pela jornalista Cristiana Lôbo, no Programa do Jô da última quarta: “E safadeza prescreve?” Grande Jarbas! A propósito de crimes, penas e prescrições, recebi do juiz Jorge Luís de Camargo, ex-juiz de Direito na Bahia e atual professor de Direito Penal e Constitucional nas Faculdades Integradas de Ourinhos (SP), algumas informações preciosas, que quero partilhar com vocês. Primeiro, a questão das prescrições: Formação de quadrilha – pena de 1 a 3 anos – prescreve em 8 anos Peculato (agente público que desvia dinheiro) – 2 a 12 anos – prescreve em 16 anos Corrupção ativa – 2 a 12 anos – prescreve em 16 anos Corrupção passiva – 2 a 12 anos – prescreve em 16 anos Lavagem de dinheiro – 3 a 10 anos – prescreve em 16 anos Evasão de divisas – 2 a 6 anos – prescreve em 12 anos Gestão fraudulenta – 3 a 12 anos – prescreve em 16 anos Isto em tese, porque quando o Supremo julgar definitivamente o caso, é preciso lidar com a pena efetivamente aplicada, para se chegar ao tempo de prescrição. Por exemplo, se José Dirceu for condenado à pena máxima por formação de quadrilha (3 anos), seu crime prescreverá em 8 anos, isto é, 2015. Mas se José Genoíno, por exemplo, for condenado à pena mínima também por formação de quadrilha (1 ano), seu crime prescreverá em 4 anos, ou seja, em 2011. Se o Supremo andar ligeirinho (aí é que mora o perigo!), com a ajuda dos juízes de primeira instância, que já vão começar a ouvir réus e testemunhas (mais de 300 pessoas), não há condição de nenhum dos 40 mensaleiros escapar do cumprimento da pena por eventual prescrição. Mas o juiz Jorge Luís de Camargo afirma que podemos manter nossas esperanças de ver os culpados punidos e os inocentes liberados. Segundo ele, o foro privilegiado, neste caso é uma faca de dois gumes. Quando é julgado em primeiro grau, o réu pode recorrer de todas as decisões para o tribunal de segundo grau, depois para o STJ e, posteriormente, para o STF, o que arrasta os processos por anos e anos, de olho na prescrição. E com muito sucesso, na maioria dos casos. Mas no caso dos 40 mensaleiros, os processos já começam no Supremo. Dada a sentença, não cabe mais recurso, porque o STF é a última instância do Poder Judiciário. Por tudo isso, podemos manter as esperanças de assistir ao julgamento definitivo dos 40 mensaleiros ainda em nossas vidas. Esperança, moçada! Porque hoje é sábado.
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Finalmente, é setembroAgosto acabou, ainda bem! Daqui para frente, tudo vai ser melhor, tenho certeza.
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Por dentro do blog
Prêmio Comunique-seEstou feliz que nem pinto no lixo, como se diz aqui no Rio. Sou um dos três finalistas do Prêmio Comunique-se, categoria jornalismo político (mídia eletrônica). Os outros dois são Alexandre Garcia e meu amigo Ricardo Noblat. Ano passado também fui um dos três finalistas. O Prêmio Comunique-se é uma espécie de Oscar do jornalismo brasileiro. Não se premia um trabalho, como no Prêmio Esso, mas uma atuação ao longo do ano. Por que é um Oscar? Porque são os colegas que elegem os melhores do ano. A festa da premiação dos melhores é dia 18 de setembro, em São Paulo. Mas os três finalistas recebem prêmios, sobem no palco, recebem o reconhecimento dos colegas. Por que estou tão feliz? Porque, tendo iniciado na carreira profissional de jornalista há apenas cinco anos, sendo formada em jornalismo há apenas dois anos, é o segundo ano em que sou indicada e fico entre os três melhores. É honraria para ninguém botar defeito. Estou muito feliz. E devo muito a vocês. Por isto quero partilhar minha felicidade aqui no blog. Já sou vitoriosa. Se for a primeira, será melhor. Mas também já é muito bom estar entre os três melhores jornalistas de política em mídia eletrônica, disputando com tantas feras. Estou adorando.
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O Senado de joelhosAs sucessivas demonstrações de arrogância, bazófia, abuso de poder e outros desmandos por parte do presidente do Senado Federal já seriam suficientes para configurar quebra de decoro parlamentar e justificar um pedido de cassação de seu mandato. A presença da assessora da Mesa no Conselho de Ética, os assessores jurídicos constrangidos a apresentar pareceres favorecendo o presidente da Casa, a mesma assessora da Mesa pilhada por repórteres fazendo uma “maquiagem” no depoimento prestado por Renan Calheiros ao Conselho de Ética. Tudo isto mostrando como o senador usa os funcionários do Senado Federal como se fossem peões de suas fazendas alagoanas – com todo o respeito à valorosa classe dos peões. O que mais será preciso acontecer para que os senadores se convençam daquilo que toda a sociedade brasileira já sabe há tempos: que o senador Renan Calheiros não tem mais condições morais de presidir o Senado da República? Mas os senadores continuam acoelhados, paralisados diante dos desmandos do senador Renan Calheiros. Nunca é demais repetir: que segredos tão cabeludos o senador Renan Calheiros detém a respeito dos outros 80 senadores e senadoras, para manter o Senado da República de joelhos? Senadores sempre tão falantes, líderes de partido que têm opinião sobre tudo, políticos aguerridos, que mantêm debates acalorados na tribuna... Praticamente todos calados, acabrunhados, querendo votar logo a absolvição de Renan no plenário do Senado, para que todo mundo se esqueça do assunto e a vidinha volte a ser como era antes no Senado da República: um clube seleto, com poucos sócios e muitas, muitas benesses. Todas proporcionadas pelo presidente da Casa. Que espetáculo mais triste!
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A democracia está viva no BrasilFinalmente, acabou o julgamento do século. Ou, colocado de outra forma, começou agora o julgamento do século. Numa decisão histórica – pelo número de pessoas envolvidas, pelos nomes e cargos dos denunciados, pelo número de crimes identificados –, o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia contra todos os 40 listados pelo procurador-geral como envolvidos no caso do mensalão. A denúncia estava muito bem fundamentada, severa porém serena, sem perseguições, sem paixões exacerbadas. Por isso mesmo, os ministros do Supremo, depois de exame técnico, também sem perseguições nem paixões exacerbadas, aceitaram (quase integralmente) as denúncias contra os 40. Algumas lições preciosas podem ser extraídas desses cinco dias de julgamento. Primeiro, o recado do Supremo aos políticos: não abusem do foro privilegiado. Em bom português, digo eu: os ministros do STF estão avisando que foro privilegiado precisa deixar de ser guarda-chuva para bandido. Segundo, se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre a existência do mensalão, depois da decisão do Supremo não resta mais nenhuma. Vamos dizer com todas as letras. O mensalão existiu, sim. Não se tratou de mero crime de caixa 2. O crime foi muito mais amplo. A “sofisticada organização criminosa” descrita pelo procurador-geral – e reconhecida pelos ministros – mostrou uma verdadeira camarilha bolchevique que tomou de assalto o Estado brasileiro, loteou a administração pública entre aliados e perverteu as votações no Legislativo, através da compra do apoio dos deputados da base aliada e estímulo à engorda artificial dos partidos da base, comprando a transferência de deputados para aqueles partidos. Tampouco se sustenta a versão de alguns deputados do PT de que, como já pertenciam ao partido do governo, não receberam mensalão, mas apenas contribuição para pagamento de dívidas de campanha – crime de caixa 2. O mensalão foi muito além da ajuda financeira para campanha. Foram montanhas de dinheiro que passaram pelas contas do publicitário Marcos Valério e pagaram todo tipo de serviço, desde campanhas eleitorais, passando por honorários de advogados, despesas com publicidade na campanha presidencial de 2002 e em campanhas para prefeito em 2004, até hotéis de luxo, aluguel de jatinhos, festas em suítes presidenciais, garotas de programa, charutos cubanos, alfaiates caros, jóias, apartamentos, fazendas. A lista não tem fim. Os 40 réus do processo do mensalão vão responder por pelo menos um dentre esses crimes: lavagem de dinheiro, evasão de divisas, gestão fraudulenta, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato e formação de quadrilha. Para o governo Lula, é profundamente constrangedor ver ex-ministros (José Dirceu, Luis Gushiken e Anderson Adauto) como réus de vários processos. Mais ainda: as denúncias atingem o coração do núcleo de poder do governo, do PT, o comando da campanha presidencial de 2002, os arquitetos da vitória de Lula nas eleições presidenciais. Os companheiros do presidente Lula, de quase 30 anos. Para o PT, as denúncias atingem o coração do núcleo de poder no partido, à época: o ex-presidente nacional (mas ainda todo-poderoso) José Dirceu; o então presidente nacional José Genoíno; o então tesoureiro Delúbio Soares, e o então secretário-geral Silvio Pereira. Além de ex-presidente da Câmara, deputados e ex-deputados. Um escândalo para ninguém botar defeito. No caso do ex-ministro e ex-deputado cassado José Dirceu, o constrangimento é absoluto: tornou-se réu em dois crimes, formação de quadrilha e corrupção ativa. Peculato é um nome esquisito, e muita gente não sabe que significa a apropriação ou o desvio de recursos por funcionário público. Mas todo mundo sabe o que é uma quadrilha. Além de ser enquadrado no crime de formação de quadrilha, José Dirceu foi reconhecido pelos ministros que aceitaram a denúncia (nove entre dez) como o chefe da organização criminosa. Nas palavras do relator, ministro Joaquim Barbosa, o “mentor, o comandante supremo” da organização. De novo, em bom português: chefe da quadrilha. Agora, é esperar pelo processo e acreditar nas promessas de agilidade por parte do Supremo. Mas a lição mais importante é: a democracia está viva no Brasil. Não porque os 40 se transformaram em réus, mas porque o julgamento foi possível. Foi, sob todos os aspectos, um julgamento histórico, cujo desfecho pode ser resumido nas palavras do ministro Celso Mello: “Ninguém está acima da Constituição e das leis.”
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A palavra do presidenteFoi muito importante a entrevista do presidente Lula ao jornal O Estado de São Paulo publicada ontem. Foi importante, primeiro, por ter acontecido. São tão raras as entrevistas do presidente, que quando acontece uma, é notícia a ser saudada. E o que disse ele de tão importante? Nada muito diferente do que disse em sua primeira entrevista coletiva dada no segundo mandato, meses atrás. Mas aí reside a importância das palavras pronunciadas nesta entrevista ao Estadão: o presidente Lula reafirmou que não pensa em terceiro mandato. Que nem que o povo peça ele disputará novo mandato em 2010. Portanto, a idéia de uma Constituinte que proponha tal absurdo já está enfaticamente descartada pelo presidente. Constituinte até pode ser, mas terceiro mandato não. Lula disse ainda que não pretende ficar neutro na eleição de 2010. Muito justo. O presidente tem todo o direito e toda a legitimidade de ser o grande eleitor, de “subir em palanque”, como diz ele (já eu digo que ele nunca desceu do palanque). O presidente quer construir uma candidatura com os partidos da base. Mas declarou também – e esta é outra afirmação relevante – que acha “improvável que um partido do tamanho do PT decida não ter candidato”. Esta é uma frase de quem conhece seu partido. E, convenhamos, não é razoável que um partido do tamanho do PT, com a história do PT, partido do presidente da República, um presidente que tem 60% de popularidade, que faz um governo considerado (por eles mesmos, é claro) o melhor governo desde Tomé de Souza, não é razoável, repito, que o PT não queria capitalizar tudo isto apresentando candidato próprio à sucessão de Lula. Lula tem uma espécie de contrato pessoal com as massas deste país. A massa se identifica com Lula, se reconhece nele, confia nele. Conseguirá o presidente Lula transferir este apoio maciço, verdadeiro, para seu candidato? Este é o grande mistério. Claro que conseguirá transferir alguma coisa, mas não tudo, porque o contrato é pessoal entre Lula e as massas. Mas permanece o mistério: este “alguma coisa” será suficiente para eleger o candidato de Lula? Apostas para 2010 já começam a ser aceitas. Voltando à entrevista, o presidente Lula aparece como alguém que, segundo suas próprias palavras, deve tudo à democracia. Hoje, quando seus mais próximos amigos e companheiros, ex-ministros de seu governo, estarão sendo julgados no Supremo Tribunal Federal por formação de quadrilha, entre outros crimes, a palavra do presidente da República é importante garantia de que as regras democráticas não serão quebradas por ele.
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Por dentro do blog
Socorro!! (2) - sobre "laranjas"Em primeiro lugar, quero agradecer a colaboração de todos. Foram 63 comentários, sendo que 95% apresentaram sugestões, forneceram tentativas de resposta, histórias saborosas, explicações mirabolantes, mas todas muito divertidas, além de verossímeis. As explicações mais criativas vieram de Edson Oliveira, Rafael Fonseca, R. Gouveia, Velhinho Rabugenteo (adorei o nick!), Estevane Carvalho e Ronaldo. Como não pude me decidir a respeito de uma única versão, juntado todas montei a seguinte história: O termo “laranja” nasceu no meio policial. Tratava-se de um intermediário que servia de fachada para acobertar um ilícito. Nem sempre o “laranja” era um inocente útil. Boa parte das vezes era recompensado financeiramente pelo uso de seu nome e tinha conhecimento da sua participação na tramóia. Mas por que a palavra “laranja”? O uso remonta à década de 70, quando presos políticos necessitando de fundos para manter suas famílias, criaram as “pirâmides”, jogo no qual uma pessoa, que era chamada de “limão”, deveria aliciar outras dez pessoas para o jogo, fazendo pagamentos para que os “limões” recebessem. Isso acontecia sistematicamente, pois para alguém receber, alguém deveria pagar. As pessoas que faziam o pagamento eram chamadas de “laranjas” e dificilmente obtinham seu dinheiro de volta, isto é, eram as pessoas que pagavam e não recebiam o seu dinheiro de volta. Por isso, nas penitenciárias o “laranja” passou a acobertar todo tipo de crime: tráfico, assassinato, violência sexual, roubo, entre outros. Na década de 80, um escândalo envolvendo produtores de laranja no interior de São Paulo e um empréstimo obtido, com a ajuda de alguns políticos, junto ao Banco do Brasil para abafar o caso popularizaram o termo “laranja”. Ainda na década de 80, o termo “laranja” foi utilizado no Sistema Financeiro de Habitação. As construtoras e incorporadoras contraíram empréstimos na Caixa Econômica Federal. Mas a inflação aumentou, os imóveis caíram de preços, e as vendas estacionaram. Para não ficar com o passivo que subia com a correção monetária, construtoras e incorporadoras venderam imóveis a pessoas que não tinham condições de arcar com a dívida. Mas poderiam ficar dois a três anos no imóvel, até que ele fosse tomado pela Caixa. Estas pessoas eram os “laranjas”. Na época calculou-se em mais de 20% dos financiamentos da Caixa nesta situação. E assim, de escândalo em escândalo, os “laranjas” se tornaram um termo popular no vocabulário político brasileiro. Agora, o prêmio de explicação criativa vai para Estevane Carvalho. Trata-se do seguinte: “Há muitos anos, em algum país da Europa, as pessoas foram proibidas de ingerir bebida alcoólica em público. Para enganar as autoridades, as pessoas espremiam as laranjas e as embebiam de bebida alcoólica. Ou seja, as laranjas eram apenas fachadas, disfarce.” Como dizem os italianos, si non é vero, é bene trovato.
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À espera do Supremo (2)
Por dentro do blog
Socorro!!Há dias, uma ouvinte fiel de meus comentários na Rádio CBN me enviou uma intrigante pergunta. Abaixo vai o texto: “ Espero toda quarta-feira pelas "Meninas do Jô", que explicam a política na linguagem que o povo brasileiro entende. É pena que seja tão tarde, porque, infelizmente, a maioria da população não pode assistir. Acesso diariamente seu blog, escuto seus comentários na CBN e gosto muito. Fico orgulhosa de ter uma mulher como você que bota a boca no trombone e faz isto com uma convicção brilhante. Outro dia, assistindo ao Programa do Jô, vi que vocês falaram muito sobre os "laranjas" do senador Renan Calheiros. Que cara de pau! Sei o que significa, mas gostaria que você explicasse a origem do emprego da palavra “laranja” nestes casos. Um grande abraço e um beijo no seu coração. Lourdinha Ferreira (Pará de Minas-MG)” ..................................................................... Pois é. Adoraria saber a resposta e satisfazer a dúvida da Lourdinha. Pedi socorro a vários amigos. Economistas seriíssimos e famosíssimos, advogados que atuam com empresas do mercado financeiro, jornalistas de economia, repórteres sérios de revista importantes. E nada!!!! Todo mundo se vale do termo “laranja”. E ninguém, repito, ninguém!!!, sabe de onde veio. Já que eu tenho um blog, já que conto com vocês para as críticas, e também para as sugestões. Já que vocês são a minha companhia predileta – depois do Edgar e dos meus(minhas) netos(as), evidentemente. Meu psicanalista vai morrer de inveja, é o que eu espero –, venho pedir socorro. Vamos agradecer à Lourdinha Ferreira, de Pará de Minas, por ter lançado uma dúvida cuja resposta nos interessa a todos Vamos lá, amáveis freqüentadores(as) deste blog. Blog também é cultura. A resposta mais convincente vai ganhar o aplauso de todos nós! Coragem, moçada! Ao trabalho!
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Nuremberg em Brasíla (6) -- O julgamento do séculoBarriga de mulher, urna eleitoral e cabeça de juizA expectativa de que o julgamento dos 40 mensaleiros terminasse hoje pode não se confirmar, pois o STF decidiu fatiar as denúncias e votar uma por uma. Ontem à tarde, o relator decidiu iniciar o julgamento pelos dirigentes do Banco Rural, acusados de gestão fraudulenta, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Acontece que o ministro Joaquim Barbosa acolheu a denúncia do procurador-geral sobre gestão fraudulenta, e dois ministros acompanharam o voto do relator: Marco Aurélio Mello e César Peluso. Interrompida a sessão, outros sete ministros votam a denúncia hoje. Depois têm que votar as outras três denúncias: formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Se a coisa for nesse passo, denúncia por denúncia, o julgamento pode se estender para além de segunda-feira. De qualquer forma, o procurador-geral obteve uma importante vitória ontem: depois de acalorada discussão entre os ministros, foram consideradas legais todas as provas reunidas na representação da Procuradoria-Geral. Se vão ser aceitas como suficientes para abertura de processo, é outra história. Mas não foram excluídas. O julgamento que se iniciou na quarta-feira já é considerado um dos mais importantes da História do Supremo Tribunal Federal. Nunca, na história deste país, tantas figuras proeminentes do governo, como ex-ministros, ex-deputados, marqueteiros do presidente, publicitários famosos e banqueiros, foram indiciados por tantos crimes. Daí as atenções voltadas para o STF. Não custa repetir que se trata das preliminares do julgamento. De aceitar ou não que seja aberto um processo criminal contra essas Excelências. Por isso, nesta fase não se aplica o princípio jurídico in dubio pro reu (na dúvida, beneficia-se o réu). Isto se aplica no julgamento definitivo. Nesta fase preliminar, ao contrário, aplica-se o princípio in dubio pro societate, isto é, se houver alguma dúvida, deve-se abrir processo. Como existe uma montanha de indícios, a expectativa é a de que a denúncia seja aceita. O que pode perturbar e prolongar muito o processo é o tal do foro privilegiado. Podemos ser contra ou a favor, mas o fato é que todo o processo será julgado no Supremo, porque há deputados, ex-deputados e ex-ministros envolvidos – e estes têm direito a foro privilegiado. Assim, pessoas que não têm direito ao foro, como Delúbio Soares, Silvio Pereira, Duda Mendonça, Marcos Valério, Kátia Rabello e outros, serão também julgados pelo Supremo. O título lá de cima nos remete a um ditado antigo: de barriga de mulher, urna eleitoral e cabeça de juiz, não se sabe o que pode sair. Atualmente, com a ultrassonografia e as pesquisas de boca de urna, só restou a cabeça de juiz. Mas ontem, depois que O Globo publicou a troca de e-mails entre dois ministros do STF, em pleno julgamento, adiantando o voto de outros ministros, talvez não reste surpresa nem em cabeça de juiz. A propósito, é bom deixar registrado que os dois ministros estavam em local público, numa cerimônia pública, julgando uma denúncia que é de conhecimento público. Portanto, o jornal não cometeu invasão de privacidade, pelo simples fato de que não havia privacidade a ser invadida.
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Nuremberg em Brasília(5) -- o Julgamento do século
A omissão deliberada do presidente LulaA sessão de ontem no STF serviu para refrescar a memória de muita gente a respeito do escândalo do mensalão. Mesmo quem, como eu e muitos, tinha relido com atenção as 136 páginas da denúncia do procurador-geral, além das conclusões da CPMI dos Correios, assustou-se com a consistência do esquema descrito em detalhes ontem. A expressão cunhada pelo procurador-geral, de uma “sofisticada organização criminosa”, retrata bem o que se passou e, pior, o que poderia ter continuado a se passar, não fosse o estouro do esquema. (É sempre um dos “de dentro” de detona um esquema desses. Nem a imprensa, nem uma CPI, nem ainda a polícia poderiam ter chegado à riqueza de detalhes do mensalão, não fosse a denúncia de um dos principais envolvidos, o então deputado Roberto Jefferson.) Depois daquela leitura, volto a dizer, assustadora, pode-se chegar à conclusão de que se tratava mesmo de uma verdadeira camarilha bolchevique que tomou de assalto o Estado brasileiro, loteou a administração pública entre os aliados e perverteu as votações no Legislativo, através da compra de deputados pela prática do mensalão. Tem mais: depois de tudo isto, fica ainda mais difícil concordar com a tese de que o presidente da República não sabia de nada. Ainda mais tendo em vista suas históricas e íntimas relações com o núcleo central dos indiciados. Quando as primeiras denúncias sobre o mensalão começaram a aparecer, ainda era possível sustentar que o presidente Lula não fazia a menor idéia do que estava acontecendo. Mas diante da avalanche de evidências, já não era mais tão certo que o presidente não soubesse de nada. Foram montanhas de dinheiro que passaram pelas contas do publicitário Marcos Valério e pagaram todo tipo de serviço, desde campanhas eleitorais, passando por honorários de advogados, despesas com publicidade na campanha presidencial de 2002 e em campanhas para prefeito em 2004, até hotéis de luxo, aluguel de jatinhos, festas em suítes presidenciais, garotas de programa, charutos cubanos, alfaiates caros, jóias, apartamentos, fazendas. A lista não tem fim. Na lista dos envolvidos, embora houvesse muita gente dos partidos da base do governo, a maioria era do PT – nem todos foram indiciados pelo procurador-geral. Por mais que Lula tente parecer independente do partido, foi seu fundador, é seu símbolo maior. E mais: Lula foi funcionário remunerado do PT durante muitos anos. Não é crível que não soubesse das estripulias de seus companheiros mais próximos. Simplesmente, Lula optou por não saber. E não é de hoje. Luiz Inácio Lula da Silva jamais se interessou em saber a origem dos recursos que pagavam suas despesas, suas viagens, suas campanhas eleitorais, suas caravanas pelo país afora, antes de assumir a presidência da República. Pelo visto, Lula nunca se preocupou com esses detalhes. Afinal, ele achava que tinha uma missão muito mais importante. Num indivíduo, pode-se tolerar tamanho descolamento da realidade. Mas num presidente da República é uma atitude inaceitável. Então o presidente não sabia que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, despachava com empreiteiros dentro do Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo da República?! Então o presidente não sabia que o secretário-geral do PT, Silvio Pereira, despachava dentro do Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo da República, nomeando aliados para cargos públicos, selecionando currículos(?) de companheiros para os mais de 20 mil cargos em comissão?! Então o presidente não sabia que seu chefe da Casa Civil se reunia com dirigentes do PT e de outros partidos para lotear a máquina pública, dentro do Palácio do Planalto?! Desde aqueles meses terríveis do mensalão, a estratégia de defesa montada para o presidente Lula pelo então ministro da Justiça, Marcio Thomas Bastos (excelente advogado criminalista), foi: “não sei de nada, não vi nada, não fui informado de nada”. Do mensalão, passando pelos “aloprados” que queriam comprar um dossiê contra tucanos, chegando até mesmo ao caos aéreo, Lula repete o mantra soprado por Marcio Thomas Bastos. Ele não sabe da nada, nunca soube de nada. E tem obtido enorme sucesso. O que não o exime de responsabilidade. Omissão deliberada também pode configurar crime.
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