Mais um ataque ao bolso do contribuinteO ministro da Saúde vem declarando que é preciso flexibilizar as regras de contratação de servidores para sua área e propõe a criação das Fundações estatais. Estes organismos contratariam funcionários pela CLT e não pelo Regime Jurídico Único, pagariam salários compatíveis com o setor privado e assinariam com o governo federal um contrato de gestão, com metas a cumprir. Tudo bem que este modelo seja a cópia das fundações públicas criadas pelo Decreto-lei 200, de 1967 – ou seja, está comemorando 40 anos este ano. A proposta das fundações públicas era extremamente inovadora na época, justamente para encontrar uma saída para o engessamento do setor público – com sua estabilidade, seus baixos salários, sua falta de competitividade e, portanto, de eficiência. Mas acontece que o Regime Jurídico Único, aprovado durante o governo Collor, acabou com essa brincadeira. Transformou todo mundo em estatutário, deu estabilidade, cortou a autonomia das fundações e, excetuando os funcionários de estatais, todo mundo virou barnabé. A mesma ciranda de baixos salários e falta de motivação, tudo para compensar a estabilidade tão sonhada. Pois agora está acontecendo a mesma coisa. Enquanto o ministro da Saúde pensa em desengessar o setor público, a Câmara dos Deputados se prepara para perpetrar mais um horror. A Constituição de 88 deu estabilidade aos servidores sem concurso que já estavam no setor público cinco anos antes de sua promulgação, isto é, desde 1983. Os restantes continuariam sob o regime da CLT. O Regime Jurídico Único deu uma saída intermediária, mas não a estabilidade completa. Pois agora uma emenda constitucional do ex-deputado paulista Celso Giglio dá estabilidade a todo esse pessoal. Como muita gente já se aposentou, serão cerca de 60 mil beneficiados. Porém... Sempre tem um porém. Pegando carona nesta emenda, o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) fez outra emenda, beneficiando também o pessoal requisitado. Quem for funcionário de prefeitura, por exemplo, mas estiver requisitado para uma Assembléia Legislativa ou a Câmara dos Deputados (caso de muitos cabos eleitorais pelo país afora), pode pedir efetivação na Assembléia ou na Câmara, com os salários da Assembléia ou da Câmara. Bom à beça, né não? Resultado desta nova brincadeira: cerca de 300 mil funcionários públicos serão beneficiados com o novo trem da alegria. E quem paga essa farra? Adivinha. Preparem o bolso, porque a conta vai ser salgada.
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A encrenca das agências reguladorasDesde 1995, vinha diminuindo significativamente o peso do Estado na vida nacional. O programa de privatizações retirou do setor público a gestão de amplos setores da economia nacional, como telecomunicações, ferrovias, portos, rodovias, hidrelétricas. A partir daí, o Estado tentou fixar-se mais em atividades de regulação do setor privado. Com isso, estimulou-se a criação de agências encarregadas de orientar e fiscalizar serviços públicos cuja exploração passou a ser executada pela iniciativa privada. As primeiras agências a serem criadas, a Aneel e a Anatel, seguiam exatamente este modelo. No entanto, como é comum acontecer no Brasil, houve uma proliferação desnecessária de agências. Passou-se a ter agência para tudo: petróleo, cinema, planos de saúde, transportes terrestres, aviação civil, águas. Atualmente, são dez agências reguladoras. E por que houve a proliferação? Por um fenômeno muito típico do setor público brasileiro. Em geral, o funcionário público ganha mal – o marajá só existe nas estatais e em certas carreiras; o resto é barnabé mesmo –, e o plano de carreira, quando existe, contém inúmeras distorções. Como as agências nasceram com a proposta de ter um quadro próprio, com uma carreira definida e, sobretudo, com a expectativa de uma escala salarial compatível com o setor privado, todo mundo quis virar agência. Hoje existem agências que formulam as políticas do setor. Este não é papel da agência reguladora. A formulação da política deve ser feita pelo Poder Executivo. À agência cabe executar as políticas e fiscalizar a atuação das empresas privadas que atuam no setor, sempre a partir das diretrizes formuladas pelo Executivo. Caso contrário, acontece o que aconteceu: as agências foram capturadas pelas empresas que deveriam fiscalizar. Quanto às relações entre as agências e o governo, uma coisa precisa ficar bem clara: nenhum governante gosta de agência reguladora. A existência da agência significa a retirada de parcelas de poder das mãos do Executivo e sua transferência para uma agência do Estado. Nisso o presidente Lula não é diferente de Fernando Henrique. Ao assumir em 2003, Lula declarou que as agências eram uma forma de "terceirizar o governo". Fernando Henrique distancia-se de Lula porque percebeu logo que não haveria investimento de longo prazo sem garantia de estabilidade nas regras. Hoje, Lula precisa de investimento privado pesado: hidrelétricas, ferrovias, melhorias em aeroportos, estradas e portos, além da expansão da rede de telefonia. Se não houver garantia de estabilidade das regras, que independem de governo – daí a importância das agências –, os investimentos não virão. Isto é certo. Mas é claro que a antipatia de Lula em relação às agências não foi idéia apenas dele. O maior inimigo das agências reguladoras dentro do governo é a ministra Dilma Roussef. Quando era ministra das Minas e Energia, fez o possível para retirar poder das agências que atuavam na área do seu ministério. Não conseguindo, decidiu asfixiar as agências. O orçamento foi reduzido ao mínimo, os dirigentes eram desprezados pelo governo, estimulados mesmo a renunciar a seus cargos. Várias agências passaram mais de ano sem um ou dois diretores, a ponto de inviabilizar certas decisões, que só poderiam ser tomadas por maioria do colegiado. O golpe de misericórdia foi a politização excessiva das agências, instalando nas diretorias amigos, asseclas, acólitos, apadrinhados e apaniguados. Com a tragédia da TAM, a incompetência da Anac explodiu em sua verdadeira grandeza. Mas os problemas das agências são antigos. Desde 2004 dorme em alguma gaveta na Câmara dos Deputados o projeto de lei geral das agências reguladoras. A quebra de braço entre governo e oposição está justamente na definição dos limites de atuação das agências. A ministra Dilma quer reestatizar quase todas as atribuições das agências – se pudesse, pura e simplesmente extinguia as agências, e não se falaria mais nisso. A oposição quer restaurar o modelo original, com autonomia administrativa e fiscalizatória, mas não de formulação das políticas do setor. Vamos ver como se encaminha a discussão. O fato é que o Brasil não pode ficar sem órgãos reguladores para certos setores da atividade econômica. Quem vai ganhar esta quebra de braço, o país ou a ministra Dilma? Façam suas apostas.
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Por dentro do blogMuitos de vocês me pedem para comentar o caso dos dois cubanos deportados. Confesso que no início não tinha me interessado muito pelo caso, porque deserção de atletas cubanos é assunto quase banal. Em todas as competições esportivas internacionais, há sempre um cubano que deserta. (Por que será? Cuba parece ser o paraíso sobre a Terra...) Agora, depois de ter lido tudo o que pude, aí vai minha versão da história. Os cubanos realmente desertaram e foram contratados pelos agentes alemães. Fidel Castro não ficou nada satisfeito com as primeiras deserções. Mandou buscar a maior parte da delegação porque sua polícia política desconfiou de uma deserção em massa depois da cerimônia de encerramento do Pan. Como seguro morreu de velho, Fidel os seqüestrou de véspera. As famílias dos dois cubanos foram ameaçadas. Fidel fez chegar aos ouvidos dos atletas o que poderia acontecer com suas famílias. Os jovens recuaram. É natural. Agora, o papel do governo brasileiro. Papelão, melhor dizendo. Demonstrou total subserviência a Fidel Castro, passando por cima de toda a tradição brasileira de conceder asilo político a quem o peça: gente de esquerda, de direita, não importa. O governo brasileiro é lento para tudo: para dar escola, para dar hospital, para prender bandido, para consertar aeroporto. Mas foi de uma rapidez de lebre ao prestar este favorzinho a Fidel. O mais triste é que este é um governo que teve boa parte de seus membros asilados em outros países. Não consta que nenhum deles tenha entregado brasileiros asilados à sanha da polícia da ditadura. Agora os pobres cubanos vão comer o pão que o diabo amassou nas masmorras de Fidel. E membros do governo brasileiro (atuais e ex) continuarão a passear em Cuba, a fumar legítimos cubanos e a beijar a mão do ditador.
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Mi Buenos Aires queridoEnquanto isso, num grande país ao sul do rio da Prata, a bruxa ronda o casal imperial, oops, presidencial Néstor e Cristina Kirchner – ela, candidata favorita à sucessão do marido, em outubro próximo. Uma enxurrada de escândalos envolvendo ministros e assessores do presidente põe em xeque a disposição de Néstor Kirchner de afastar e punir os suspeitos. Claro que o presidente argentino declarou que a descoberta dos escândalos é resultado do trabalho de controle e fiscalização de seu governo. Nas palavras do presidente Kirchner, “pela primeira vez, na história da Argentina, se combate a sério a corrupção”. Vamos aos escândalos. A ministra da Economia, Felisa Miceli, foi demitida depois que apareceu no banheiro do seu gabinete uma mala com 100 mil pesos e US$ 31 mil em dinheiro. Ela declarou que o dinheiro serviria para comprar um imóvel, mas não conseguiu comprovar a origem dos recursos. A ministra da Defesa, Nilda Garré, foi indiciada por contrabando de material bélico subfaturado. A secretária de Meio Ambiente, Romina Picolotti, teria contratado irregularmente cerca de 300 funcionários, entre eles seu irmão. (Como tem mulher envolvida em falcatruas, meu Deus!) O poderoso ministro do Planejamento, Júlio Miguel De Vido, está no centro de um escândalo cabeludo, envolvendo a construtora sueca Skanska, que admitiu ter pagado propina no valor de 13 milhões de pesos para vencer uma licitação para a construção de um gasoduto. Dois funcionários do Ministério do Planejamento, cujo envolvimento já ficou comprovado, foram demitidos. Finalmente, o escândalo mais recente. O presidente do Ente Regulador de Pistas (a ANTT argentina, agência reguladora das estradas), Claudio Uberti, deu carona em um avião ao venezuelano Guido Antonini Wilson, que entrou no país com uma mala contendo US$ 790 mil. Suspeita-se que sejam “recursos não contabilizados” para ajudar na campanha da primeira-dama à presidência da República. Uberti e De Vido foram importantes arrecadadores de campanha de Kirchner. A oposição suspeita que os dois estejam fazendo o mesmo papel na campanha de Cristina Kirchner. Como diz o coleguinha Ancelmo Gois, deve ser horrível viver num país onde o presidente da República é cercado por tantas malas de dinheiro e tanta gente mal intencionada.
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Ó, Minas Gerais!Enquanto todas as atenções se voltavam para a política nacional: Renan e seus bois, Renan e suas notas suspeitas, Renan e a cervejaria, Renan e as emissoras de rádio... Enquanto todas as atenções se voltavam para o caos aéreo: tragédia com o avião da TAM, Congonhas, ranhuras, manete, reverso pinado, novo ministro, Infraero, obras superfaturadas, Anac, favorecimento e incompetência... Por trás das montanhas de Minas Gerais, mais um ataque à democracia e à igualdade entre os cidadãos brasileiros era perpetrado na Assembléia Legislativa. No final de maio de 2007, deputados aprovaram emenda a projeto do Executivo mineiro, ampliando o número de pessoas protegidas pelo foro privilegiado: de três para 1.981 pessoas (isto mesmo!). A nova casta de privilegiados inclui, além do governador e dos presidentes da Assembléia e do Tribunal de Justiça (já contemplados), vice-governador, secretários de estado, magistrados, conselheiros do Tribunal de Contas, advogado-geral, defensor-público geral do estado – e os 77 deputados estaduais que aprovaram a medida, naturalmente. No início de julho, o governador Aécio Neves vetou o absurdo. Os deputados decidiram não apreciar o veto e voltaram à carga rapidamente, reapresentando a emenda em um projeto de lei complementar de autoria do Ministério Público estadual, que regulamentava a atuação do MP. Nele foi, então, incluído um artigo que impede os promotores de abrir inquérito contra os beneficiados pelo foro privilegiado, sem autorização do Tribunal de Justiça. Aprovada por ampla maioria, a lei seguiu para a sanção do governador. Depois de receber manifestações públicas contra a aprovação, ele decidiu vetar o artigo que amplia o foro. Pois ontem, quinta-feira, 9 de agosto, os deputados estaduais mineiros derrubaram o veto do governador. Aécio Neves declara que não vai sancionar a lei. Mas a Assembléia Legislativa tem poder de, ela mesma, promulgar a nova lei. Publicada no Diário Oficial do estado, entra em vigor imediatamente. Agora, alguns desdobramentos políticos interessantes. Primeiro, dos 77 deputados estaduais, apenas oito deputados do PT e um do PCdoB, que são oposição, declararam que votaram contra a derrubada do veto. Ou seja, a favor do governador. (A derrubada de vetos do Executivo é sempre feita através de voto secreto.) Segundo, 60 dos 77 deputados estaduais votaram a favor da derrubada do veto. Ou seja, a contra o governador. Tendo em vista que Aécio Neves é amplamente majoritário na Assembléia, o que terá acontecido com sua base de apoio? Notícias vindas de Minas contam que Aécio teria liberado sua bancada nesta votação tão estratégica. Por quê? A oposição acusa o governador de "jogar para a arquibancada", para ficar bem na foto, aparecer bem na mídia local e nacional. Mais ainda, Aécio é acusado de não ter articulado sua base, para assim poder "blindar" seus secretários, ao mesmo tempo em que posa de democrata. E nós com isso? O problema é que o mau exemplo dos deputados mineiros pode se espalhar e contaminar as demais assembléias legislativas, o que não seria nenhuma surpresa. Infelizmente, os maus exemplos andam muito mais rápido que os bons. Não é de hoje que a tendência é a maçã podre contaminar as maçãs boas dentro do cesto. O resultado seria o aumento abusivo da casta de privilegiados no país. Cada vez mais o foro privilegiado serviria de guarda-chuva para bandidos e malfeitores de toda espécie. Existe solução? Sim, é possível articular uma legislação federal para acabar ou, pelo menos, limitar em muito o alcance do foro privilegiado e submeter todas as legislações estaduais a esta lei federal. O problema é que é preciso contar com a disposição das Excelências federais para cortar na própria carne. O retrospecto não é lá muito animador.
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Por dentro do blogPeço perdão a todos por ficar tanto tempo sem escrever. Estive em São Paulo desde terça-feira, correndo de um lado para o outro, por conta de compromissos profissionais, que terminaram na gravação do Programa do Jô. Chegando ao Rio, li com toda a atenção e respeito os comentários de vocês ao meu último post. Em primeiro lugar, quero agradecer o número recorde (até agora) de comentários. Quero também registrar o número mínimo de interferências do moderador, no sentido de manter o blog nos trilhos e nos limites de um debate civilizado. Acalorado, disputadíssimo, mas civilizado. Obrigada a todos(as). Quanto aos comentários de vocês sobre o Programa do Jô de ontem à noite, quero dizer que compreendo e me solidarizo com muitas das observações. No entanto, devo dizer que uma das coisas que caracterizam o Programa do Jô é a absoluta liberdade de pensamento e expressão. Aquele é o “Programa do Jô”, onde o anfitrião tem todo o direito e toda a liberdade de usar o espaço (que é dele) para exprimir suas convicções. E onde os convidados também têm todo o direito e toda a liberdade de usar o espaço (que o Jô lhes concede) para exprimir suas próprias convicções. Não tenho procuração de minhas colegas e amigas (Cristiana Lobo, Ana Maria Tahan e Lillian Witte Fibe), mas posso dizer que jamais sofremos qualquer tipo de censura, seja da produção, seja do próprio Jô Soares. Um espaço como aquele do Programa do Jô, em TV aberta, é precioso e raro. Muitas vezes a audiência discorda, muitas vezes se decepciona, mas sempre considera um espaço de discussão democrática, com bom humor, crítica séria e inteligente. O Programa de ontem pode ter errado na dose? Sempre é possível que alguma coisa assim aconteça. Corre-se o risco de não ser bem compreendido? É possível. Estou encaminhando os comentários de vocês à produção do programa. Com o propósito de colaborar com aquele espaço de convivência democrática, interessante, bem-humorada. Convivência muitas vezes crítica, sim, mas sempre muito leal.
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Queremos ouvi-lo, senadorSe o senador Renan Calheiros tem conhecimento de atos ilícitos praticados pelos senhores senadores e, como agente público, não tomou providências para estancar essas ilegalidades, no mínimo pode ser indiciado por prevaricação. Se o senador Renan Calheiros tem conhecimento de atos ilícitos praticados por empresas públicas ou privadas, ações ao arrepio da lei, e, como agente público, não tomou providências para denunciar e estancar estas ilegalidades, no mínimo pode ser indiciado por prevaricação. A nós, como eleitores e contribuintes, só resta pedir ao senador Calheiros que conte tudo, não esconda nada, revele todas as malfeitorias dos senhores senadores e senhoras senadoras. Revele todas as malfeitorias praticadas por empresas públicas e privadas. Os eleitores brasileiros só têm a lucrar. Sem contar a economia. Pois não custa lembrar que são os impostos pagos pelos eleitores brasileiros que custeiam essa verdadeira farra do boi. Fale, senador Renan, revele tudo. Será muito educativo, tenho certeza.
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Renan atrapalha o governo federalA situação começa a apertar para o senador Renan Calheiros. E desta vez o governo federal pode ter que intervir. Curiosamente, Renan vem se complicando em Alagoas, onde se supunha que ele mantivesse a situação sob controle. Primeiro, a Corregedoria de Justiça determinou a intervenção no cartório de registro de imóveis de Murici, feudo dos Calheiros, cidade que tem o filho do senador como prefeito. O cartório é suspeito de regularizar terras dos Calheiros, que seriam terras griladas. É o que diz o MST, cujos integrantes chegaram a invadir uma fazenda de um irmão do senador, o deputado Olavo Calheiros. O deputado, aliás, chegou a romper com o governador Teotônio Villela, a quem acusou de covarde, porque teria demorado em enviar a PM alagoana para promover a reintegração de posse da fazenda. Teotônio Villela é tucano e apóia firmemente o senador Renan Calheiros. Não se sabe o que este rompimento pode ocasionar na defesa do senador. Agora, este convenientíssimo assalto a um frigorífico a quem o senador Renan Calheiros alega que vendeu a maior parte de seus bois. Parece que os assaltantes tiveram especial interesse na documentação existente no frigorífico. A última edição da revista Veja traz mais confusões alagoanas, pois acusa Renan Calheiros de usar laranjas para adquirir estações de rádio em sociedade com seu atual desafeto, João Lyra, uma das maiores fortunas de Alagoas. Assessores de Lyra teriam confirmado as acusações da revista. Portanto, aperta o cerco em torno do senador Renan Calheiros. O Democratas ameaça obstruir todas as sessões do Senado presididas por ele. Não se sabe qual a atitude a ser tomada pelos tucanos. Mas o governo federal, até agora distante da encrenca – o presidente Lula chegou a receber Renan no Planalto, mas com o recesso e os problemas da crise aérea, Lula tem-se mantido afastado –, poderá ter que intervir. Isto porque o prazo está ficando curto para a aprovação da prorrogação da CPMF e da DRU. Ambas são emendas constitucionais, isto é, precisam ser aprovadas na Câmara em duas votações, por 308 deputados, e depois em duas votações no Senado, por 48 senadores. Tudo isto precisa estar pronto até o dia 30 de setembro, para a CPMF não ter sua cobrança interrompida em 1º de janeiro de 2008. Chama-se a isso noventena: é preciso um intervalo de 90 dias entre a aprovação e o início da cobrança. Se a base governista não se organizar, se o mal-estar no Senado continuar, a votação da CPMF pode atrasar, e isto será um problemão para o governo, que conta com esses recursos. Que não são pequenos. Será preciso muita articulação política, tanto na Câmara quanto no Senado, e o senador Renan Calheiros não está ajudando em nada. Muito ao contrário.
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Por dentro do blogA partir de hoje, este blog passará a contar com um moderador. Infelizmente, algumas pessoas aproveitam-se do anonimato ou de pseudônimos para publicar ofensas aos freqüentadores habituais do blog. Volto a dizer: este blog não é propriedade particular dos comentaristas. É, antes, um espaço para conversas amplas. Os debates têm sido acalorados. E isto é muito bom. Vamos mantê-los assim, nos limites da civilidade.
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Porque hoje é sábadoCom as novas denúncias trazidas pela revista Veja e a nova representação apresentada pelo PSOL no Senado, o escândalo Renan Calheiros volta ao debate na próxima semana. Isto tudo e mais o conveniente assalto ao tal frigorífico acusado de "esquentar" as notas do senador Renan Calheiros. Por isso mesmo, vamos descansar neste fim de semana em que parece que o sol voltou. Vamos passear, conviver com os amigos e com a família, brincar com filhos e netos, e sobretudo namorar muito. Porque a semana que vem promete ser, como diz Nelsinho Motta, "tamanco sem couro", isto é, pau puro. Pensando nisso, presenteio a vocês (e a mim também) com um das inúmeras obras-primas do poeta Vinicius de Moraes. Espero que gostem. Um bom fim de semana a todos(as). O Dia da Criação I Hoje é sábado, amanhã é domingo A vida vem em ondas, como o mar Os bondes andam em cima dos trilhos E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar. Hoje é sábado, amanhã é domingo Não há nada como o tempo para passar Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal. Hoje é sábado, amanhã é domingo Amanhã não gosta de ver ninguém bem Hoje é que é o dia do presente O dia é sábado. Impossível fugir a essa dura realidade Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas Todos os maridos estão funcionando regularmente Todas as mulheres estão atentas Porque hoje é sábado. II Neste momento há um casamento Porque hoje é sábado Hoje há um divórcio e um violamento Porque hoje é sábado Há um rico que se mata Porque hoje é sábado Há um incesto e uma regata Porque hoje é sábado Há um espetáculo de gala Porque hoje é sábado Há uma mulher que apanha e cala Porque hoje é sábado Há um renovar-se de esperanças Porque hoje é sábado Há uma profunda discordância Porque hoje é sábado Há um sedutor que tomba morto Porque hoje é sábado Há um grande espírito-de-porco Porque hoje é sábado Há uma mulher que vira homem Porque hoje é sábado Há criançinhas que não comem Porque hoje é sábado Há um piquenique de políticos Porque hoje é sábado Há um grande acréscimo de sífilis Porque hoje é sábado Há um ariano e uma mulata Porque hoje é sábado Há uma tensão inusitada Porque hoje é sábado Há adolescências seminuas Porque hoje é sábado Há um vampiro pelas ruas Porque hoje é sábado Há um grande aumento no consumo Porque hoje é sábado Há um noivo louco de ciúmes Porque hoje é sábado Há um garden-party na cadeia Porque hoje é sábado Há uma impassível lua cheia Porque hoje é sábado Há damas de todas as classes Porque hoje é sábado Umas difíceis, outras fáceis Porque hoje é sábado Há um beber e um dar sem conta Porque hoje é sábado Há uma infeliz que vai de tonta Porque hoje é sábado Há um padre passeando à paisana Porque hoje é sábado Há um frenesi de dar banana Porque hoje é sábado Há a sensação angustiante Porque hoje é sábado De uma mulher dentro de um homem Porque hoje é sábado Há uma comemoração fantástica Porque hoje é sábado Da primeira cirurgia plástica Porque hoje é sábado E dando os trâmites por findos Porque hoje é sábado Há a perspectiva do domingo Porque hoje é sábado III Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. Na verdade, o homem não era necessário Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão. Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra. Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia. Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula. Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo E para não ficar com as vastas mãos abanando Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança Possivelmente, isto é, muito provavelmente Porque era sábado.
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