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  Lucia Hippolito
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Uma semana

E ninguém vai ser demitido?
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Por dentro do blog

O comentarista deste blog que se assina Ronaldo me pede para responder sinceramente se “aceitaria ocupar uma das posições do governo responsáveis pelo sistema aeroviário.”

A resposta é “não”, Ronaldo. Minha função não é esta, não tenho qualificações técnicas para tanto.

A hora é muito grave para experimentações.

Entendo que mesmo pessoas com currículo adequado estejam temerosas de aceitar um convite.

Começando pelo Ministério da Defesa. Sua criação vem sendo discutida desde a Constituinte de 46, mas o assunto nunca tinha ido adiante.

Depois de 21 anos de ditadura, o país preferiu não discutir o papel das Forças Armadas em regime democrático. Afinal, para que servem?

Esta pergunta jamais foi respondida a sério.

Os governos civis reduziram fortemente os recursos das Forças Armadas que, sucateadas e sem projeto, ficaram à deriva no Brasil democrático.

Quando assumiu em 1995, Fernando Henrique declarou que a criação do Ministério da Defesa estava em seu programa de governo.

Mas a articulação política foi muito malfeita. Os militares sem sentiram alijados do processo.
O fato é que jamais aceitaram a criação do Ministério, com a conseqüente perda de status e de poder e a subordinação a um civil.

O segundo problema reside na Infraero. Feudo de oficiais da Aeronáutica, foi entregue a um petista aliado, no primeiro mandato do presidente Lula.

Desde então, pululam denúncias de irregularidades, várias surgidas a partir de sindicâncias do TCU.

Suspeita de superfaturamento nas obras dos aeroportos, transformação dos terminais de passageiros em shopping centers, desprezo por despesas que não têm fita de inauguração – pistas, instrumentos, segurança dos vôos –, tudo isto ronda as últimas administrações da Infraero.

O terceiro obstáculo está na Anac, a agência reguladora criada por lei em 2005 e implantada em março de 2006, para planejar, gerenciar e controlar as atividades relacionadas com a aviação civil, substituindo o DAC, vinculado à Aeronáutica.

A Anac sofre o mesmo problema de todas as agências reguladoras: a antipatia por parte do governo Lula. Desde que assumiu, Lula e seus assessores mais próximos insurgiram-se contra o que o presidente chamou de “terceirização do governo”.

Assim, a política adotada pelo Planalto foi a de sucateamento das agências, politização excessiva e contingenciamento de recursos.

A tal ponto que vários diretores e presidentes de agências reguladoras pediram demissão antes do término de seus mandatos.

Diversas agências passaram mais de um ano sem um ou dois diretores (Anatel e ANP, por exemplo), inviabilizando a tomada de importantes decisões.

Mais ainda: no caso da Anac, deu-se fenômeno similar ao da criação do Ministério da Defesa: os militares não aceitaram a perda de poder, não concordaram com a criação da Anac.

Resultado: limparam as gavetas e se retiraram, levando consigo a memória institucional.

Se tudo isto não basta para afugentar qualquer talento que porventura tivesse espírito público suficiente para enfrentar estes problemas, existe ainda o estilo petista de governar.

Resume-se a esquartejar a administração, criando uma penca de órgãos para fazer a mesma coisa. Estruturas superpostas, esquemas burocráticos um vigiando o outro.

O resultado é: ninguém tem poder, ninguém tem autoridade, ninguém coordena, ninguém lidera.

Difícil, muito difícil.





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Por dentro do blog

Comunico que foram excluídos da nota abaixo os comentários de números 34, 35 e 37. A numeração foi refeita.

Este blog não é propriedade particular dos comentaristas. É, antes, um espaço para conversas amplas. Não se presta à publicação de histórias ou colunas em capítulos.

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Para além da tragédia

As crises encerram lições. E as centenas de mortes só farão algum sentido se aprendermos com as crises.

É preciso ir além da dor para tentar identificar algumas lições nesta crise aérea que se arrasta pelo menos há dez meses e que já matou mais de 300 pessoas.

Em primeiro lugar, há uma crise de autoridade. Excesso de órgãos para cuidar da mesma coisa resulta naquilo que se sabe: ninguém manda, ninguém coordena, ninguém lidera.

E mais: ninguém é responsável. Não existe accountability.

Segundo, é preciso diferenciar culpa de responsabilidade. Ninguém sensato atribui ao governo federal a culpa pela tragédia com o vôo da TAM.

Mas o governo é responsável, sim. Se não, como entender a fala do presidente Lula na sexta-feira, reconhecendo “dificuldades no setor aéreo”, prometendo desafogar Congonhas, fortalecer a Anac, construir um novo aeroporto, redistribuir a malha aérea?

Se o próprio presidente da República reconheceu a responsabilidade do governo, não há mais o que dizer.

Terceiro, em momentos graves como este por que estamos passando, é preciso que o governo demonstre união, agilidade e, sobretudo, pulso firme.

Não se pode entender que não tenha havido até agora uma única demissão exemplar. Sabemos todos que o presidente Lula não gosta de demitir.

Ministros passam semanas se liquefazendo em praça pública, até estarem totalmente desidratados e pedirem demissão. Porque o presidente Lula tem enorme dificuldade de demitir.

Mas no caso da presente crise, algumas demissões são imperativas, até para o governo recuperar a iniciativa política. O governo está acuado há uma semana, reagindo mal e na hora errada.

Quarto, a dificuldade em demitir está sendo agravada pela extrema dificuldade de encontrar substitutos. Não é de hoje que o governo Lula tem enorme dificuldade em atrair competências, injetar sangue novo, oxigênio, na administração pública.

O que temos visto, desde o primeiro mandato, é muito mais uma dança das cadeiras, do que propriamente renovação. Sai Dirceu e entra Dilma, que estava nas Minas e Energia. Sai Viegas e entra o vice, José Alencar, depois Valdir Pires, que estava na CGU. Sai Palocci e entra Mantega, que já estava no BNDES.

Está muito difícil atrair gente nova para o governo. Agora, então, quem quer assumir este furacão?!

Finalmente, outra lição preciosa da crise: este é um governo movido a pesquisas de opinião. Durante os dez últimos meses, o governo não se mexeu em matéria de apagão aéreo, porque as pesquisas indicavam que a popularidade do presidente Lula não estava sendo afetada pela crise.

Estes dados geraram nos assessores, aspones e áulicos a firme convicção, comentada abertamente, de que “pobre não anda de avião”. “Crise aérea é coisa das elites”.

Pois, pelo visto, essas considerações revelaram-se um brutal erro de cálculo político.

A popularidade de Lula pode continuar inalterada, mas a do seu governo... Quanta diferença!



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Esfriando a cabeça

Chegou o novo (e, pelo visto, último) Harry Potter.
Está uma delícia!

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Presente para todos nós

Onde está a honestidade?

(Noel Rosa, 1933)




Você tem palacete reluzente
Tem jóias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança ou parente
Só anda de automóvel na cidade...

E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

O seu dinheiro nasce de repente
E embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade...
...
Vassoura dos salões da sociedade
Que varre o que encontrar em sua frente
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente...

Bom domingo a todos (as)


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Onde está a compostura?

Primeiro, foi a frase infeliz, grosseira, reveladora de desprezo e menoscabo pelas pessoas, pronunciada pela “elegante” e quatrocentona ministra do Turismo, com sugestões sobre o que os passageiros deviam fazer para enfrentar o apagão aéreo.

Em seguida, veio a explicação canhestra da maior autoridade econômica do país, ninguém menos que o ministro da Fazenda, sobre as raízes do apagão aéreo: “É a prosperidade!”, teria dito sua Excelência, prenhe de arrogância jeca.

Aí aconteceu a tragédia.

E a perda da compostura ainda continuou.

Dois episódios chamam a atenção, pela cafajestice, pelo deboche, pelo rompimento dos últimos limites da compostura e da decência.

No primeiro, uma autoridade subalterna, aspone que se arvora em chanceler, protagonizou junto com um assessor, numa sala do Palácio Planalto, sede da Presidência da República, uma cena pornô, das mais cafajestes e grosseiras.

Cena, repita-se, passada – e documentada – entre dois agentes públicos, nas dependências da Presidência da República.

Como muito bem observou o senador Pedro Simon, foi uma bofetada na cara do povo brasileiro.

O segundo episódio é igualmente dantesco.

A Aeronáutica, casa de Santos Dumont, Casemiro Montenegro, Eduardo Gomes, Nero Moura, Francisco Teixeira, Rui Moreira Lima, e tantos outros.

A Aeronáutica, de tantos heróis de guerra, do 1º Grupo de Aviação de Caça, que tantas glórias conquistou nos céus da Itália na Segunda Guerra Mundial.

Enfim, a Aeronáutica do capitão Sérgio Macaco, herói da resistência contra o arbítrio durante a ditadura.

Pois esta Aeronáutica, tão distante de suas melhores tradições, decidiu manter nesses dias difíceis de hoje, a comemoração do nascimento de Santos Dumont.

E condecorou com a Medalha de Santos Dumont (!!), por relevantes serviços prestados à aviação civil, o presidente e uma diretora da Anac, cujo principal mérito é a amizade com a ministra Dilma Roussef e o ex-deputado José Dirceu. Diretora, aliás, cuja performance maltratando os parentes das vítimas do acidente da Gol (aquele, do ano passado) já é registro histórico.

Onde é que a Aeronáutica está com a cabeça, que não adiou a cerimônia?!

Tendo em vista o desempenho profissional dos condecorados, que razões encontrou a Aeronáutica para dar-lhes uma medalha?

O presidente da República decretou luto de três dias em respeito aos 200 mortos no acidente com o avião da TAM.

Mas a Aeronáutica considerou que era adequado manter a cerimônia e condecorar duas pessoas certamente incluídas entre as principais responsáveis pelo apagão aéreo que vivemos há dez meses e que teve um desdobramento trágico com 200 mortos nesta mesma semana.

Como é que se condecora a incapacidade?

Como é que se condecora o descaso, a negligência, a arrogância, a auto-suficiência militante?

É de se perguntar: E ninguém vai ser demitido?


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Histórias de ACM

ACM, deputado pela UDN da Bahia. Juscelino, presidente da República pelo PSD. Partidos adversários e inconciliáveis. Certo? Mais ou menos.

ACM foi um dos expoentes do que se chamou a “UDN chapa branca” – votava sempre com o governo, que era do PSD.

Por que chapa branca? Porque os automóveis do governo federal, todos do serviço público, tinham chapa branca.

Daí para frente, “chapa branca” passou a significar atos e opiniões de setores que deveriam ser de oposição, mas que aplaudem, votam e coonestam ações dos governos.

Apesar de ser da UDN, como chapa-branca ACM aproximou-se bastante do presidente Juscelino.

No dia 20 de abril de 1960, véspera da inauguração de Brasília, todos os políticos queriam passar a noite com Juscelino no novíssimo Palácio da Alvorada. Seria forte sinal de prestígio.

Dr. Tancredo, dr. Alckmin, dr. Sebastião Paes de Almeida. Até mesmo o comandante Amaral Peixoto.

Mas Juscelino recusou todas as ofertas. Pretendia passar uma noite íntima, privada, com Sara e as meninas.

As velhas raposas pessedistas entenderam o recado e recuaram.

Mas a crônica histórica do Alvorada registra. Além de Juscelino e família, mais alguém pernoitou no Alvorada na véspera (altamente simbólica) da inauguração de Brasília: o deputado federal pela UDN da Bahia, Antonio Carlos Magalhães. Ele mesmo.




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Derrotado pela falta de compostura

Foi bastante bom o pronunciamento do presidente Lula à Nação.

Atrasado? Certamente.

Mas também contido, emocionado na medida certa. Dosando solidariedade e palavras de conforto com promessas de medidas concretas.

O mais perigoso nisto tudo é a quebra de confiança do cidadão na palavra do governo.

É a quebra de confiança do cidadão no sistema de transporte aéreo.

Mesmo com toda a popularidade, Lula não podia se dar ao luxo de enfrentar a quebra de confiança do cidadão na sua palavra.

Por isso, mesmo atrasado, o pronunciamento foi correto, na medida.

Pena que foi engolfado pelas cenas de deboche e falta de um mínimo de compostura por parte de um subalterno seu, que não honra a sala que ocupa no Palácio do Planalto.

Como sempre, Lula continua o mais mal cercado dos presidentes brasileiros.


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Vai-se o último coronel

A trajetória política de Antônio Carlos Magalhães foi toda ela uma prova da resistência do coronelismo na política brasileira, um fenômeno cuja morte vem sendo anunciada há uns 50 anos, pelo menos.

Manifestação típica da República Velha, o coronelismo, como símbolo da truculência e do mandonismo local, entrou em decadência e estava marcado para morrer com a redemocratização de 1946.

Entretanto, a permanência dos elementos que deram origem ao coronelismo, como analfabetismo; massas mantidas deliberadamente na ignorância; fraude eleitoral; ausência de políticas públicas de saúde, educação, habitação e emprego, acabaram garantindo a sobrevida dos coronéis.

Através do controle das nomeações políticas, do fisiologismo e do clientelismo, os coronéis continuaram a controlar seus currais eleitorais com mão de ferro e atitudes paternalistas. O coronel é o grande pai que vela por seu rebanho.

Com a evolução da tecnologia, o coronel tomou um banho de modernidade. Dono de jornal, passou também a ser proprietário da emissora de rádio e da repetidora de TV. Transformou-se em coronel eletrônico, tudo para conservar o controle sobre seu povo.

A história de Antônio Carlos Magalhães poderia ter sido a de um típico coronel: todo-poderoso no interior, mas sem trânsito na capital.

Quem projetou nacionalmente a figura de Antônio Carlos Magalhães foi a ditadura.

Através de suas relações com os generais-presidentes, ACM foi governador, ministro, influiu na redemocratização, infernizou todos os governos a partir de 1985.

Amado na Bahia, fazia aliança com o diabo para conseguir recursos para seu estado. Fez muito pela Bahia e pelos baianos.

Preparou o filho, político mais cosmopolita, para vôos mais altos do que a simples truculência coronelista local. Queria Luiz Eduardo presidente da República.

Depois da morte do filho e do episódio da violação do painel de votação do Senado, em que teve que renunciar ao mandato para não ser cassado, ACM nunca mais foi o mesmo.

O outono do coronel chegou bem antes de sua morte. Mesmo sendo reeleito senador, Antônio Carlos reduziu-se à política baiana, tentando conservar seus postos de mando.

A perda do governo da Bahia, verdadeira jóia da coroa da Pefelândia, para o PT, nas eleições de 2006, foi o golpe de misericórdia numa liderança que, um dia, pensou ser dono do país e do seus governantes.

Vai-se o último dos grandes coronéis da política brasileira. Sobraram apenas contrafações.




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  PERFIL
   
 

Lucia Hippolito é cientista política, historiadora e jornalista, especialista em eleições, partidos políticos e Estado brasileiro. É comentarista política da Rádio CBN desde 2002. Faz comentários também para o Uolnews e para a Globonews.

Colaboradora de vários jornais e revistas, debatedora dos programas Sem Censura (TVE/Rede Brasil) e Debates Populares (Rádio Globo AM-Rio), é também autora de vários livros sobre política, dentre os quais "PSD de raposas e reformistas", publicado pela Editora Paz e Terra e premiado como melhor obra de ciência política pela Anpocs (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais); e "Política. Quem faz, quem manda, quem obedece", escrito em co-autoria com João Ubaldo Ribeiro, publicado pela Editora Nova Fronteira. Mais recentemente, escreveu "Por dentro do governo Lula. Anotações num diário de bordo", publicado pela Editora Futura.


e-mail:
lucia.hippolito@sgr.com.br


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